Ikuno (2002), musicoterapeuta japonesa, comenta de um caso clínico que tivera, onde seu paciente foi um velho japonês de 90 anos de idade. A autora diz que inicialmente, o paciente mantinha sempre a cara fechada, não se comunicava, além de se recusar constantemente em tocar instrumentos ou participar das propostas terapêuticas. Durante o curso do processo, as canções foram capazes de resgatar, ou criar uma pessoa comunicativa, que interagia com o mundo, além de sorrir! Grandes marcas culturais emergidas ou resgatadas neste vínculo, como a canção Kojo no Tsuki desempenhando função singular, por ser uma antiga canção da cultura japonesa e por sua forte atuação no processo musicoterápico. Rita Ikuno atendeu este caso por 18 meses, até o falecimento do paciente em março de 2001.
No artigo “Cultural Aspects of Music Therapy”, Bárbara Wheeler (2002) fala acerca das diferenças culturais que tivera de lidar enquanto musicoterapeuta, ao se deslocar no interior dos EUA de Nova Jersey, para asregiões montanhosas, em Kentuchi.
Os EUA urbano e o rural. Diferente não seria se um musicoterapeuta se mudasse de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, para Imperatriz, no Maranhão. Em países com grandes extensões territoriais, a diversidade cultural é evidente.
O Brasil é uma terra que nasceu dos seus índios e da mistura de muitas raças: ricas possibilidades de interação entre culturas em musicoterapia.
Barcellos (2003) relata que a manifestação folclórica do “Bumba-meu-boi” surgiu durante um processo musicoterápico com pacientes idosos de várias regiões do Brasil. O envolvimento do grupo foi tamanho, que foram produzidos verdadeiros espetáculos de “Bumba-meu-boi”. A autora diz que este tipo de trabalho, faz acreditar, cada vez mais, que a cultura é um forte e importante elemento em Musicoterapia.
Em seu artigo “Carnival and Music Therapy”, Barcellos (2002) aponta encontros entre a musicoterapia e o carnaval num trabalho realizado em um hospital psiquiátrico; traça paralelos entre o estado psicológico que se instaura na população geral nesses 4 dias de festa, (como uma permissão para as pessoas exercitarem suas personalidades sem serem consideradas loucas) e a realidade dos pacientes internos deste estabelecimento; suas eternas ou esquecidas fantasias de imperadores e rainhas, anjos e demônios. No tempo interno destes pacientes, o samba e o carnaval estabeleceram comunicação e diálogo, desenvolvendo criações musicais. Os pacientes, tocavam, dançavam e cantavam, mas não era necessária a existência de máscaras, eles somente vivenciavam a música nas diferentes possibilidades que a música podia lhes dar. Mais uma vez, Barcellos amarra fortemente a profissional musicoterapeuta com os elementos culturais latentes ao processo.
Nota-se que a musicoterapia trabalha junto do contexto cultural de uma coletividade específica. Nicholas Kofie (2006) desenvolveu um trabalho musicoterápico em duas cidades (Accra e Tema) altamente industrializadas, em Gana. As atividades eram destinadas aos funcionários dos “workplaces”, ou locais de trabalho (denominação referente ao ambiente de trabalho em si. Kofie (2006) comenta que no processo, surgiram muitas canções em variados dialetos, trazendo muitas referências e revelando uma unidade cultural e extremamente patriótica em Gana.
Somando-se a este contexto, Schapira (2002), musicoterapeuta argentino, entende que os musicoterapeutas, em qualquer lugar que estejam, devem estar atentos na reconstrução da história musical do paciente e nas singularidades sonoras; no contexto cultural do paciente.
Barcellos (2004) em “Guest’s, Culture(s) and Music Therapy” propõe a música em musicoterapia em caminhos que se interligam com a música como um fenômeno cultural e artístico; diz que não concebe sons ou significâncias que possam estar separadas da cultura, e que tampouco pode conceber parâmetros psicológicos que possam estar separados da cultura. Para Barcellos (2004), em musicoterapia, a cultura pode ser considerada um terreno em comum a ser trilhado por musicoterapeuta e paciente.
Em “Sounds of Identify”, Schapira (2005) expõe a questão da indústria cultural na indústria da música, abaixo das asas da globalização, promovendo o consumo em massa e extinguindo as diferenças regionais, o que pode fazer com que as identidades culturais se percam. A respeito disso, Schapira (2005) comenta sobre um jovem nativo dos Andes, andar vestindo camiseta do Iron Maiden, ou ouvindo Coldplay em seu discman...
A articulação entre musicoterapia e a indústria de consumo em massa se faz presente em diversos autores contemporâneos. E com certeza, diversas personalidades poderiam ser citadas, pois os musicoterapeutas estão desenvolvendo os seus trabalhos, alertas ao primário jogo de culturas existentes na relação com o ser humano.
Percebe-se que a musicoterapia apresenta proporções culturais distintas, constituindo-se como um objeto de prática e estudo da sociedade.
Texto: André Lopes - retirado de sua monografia "Musicoterapia e Cultura Popular: o Desvelar de um Sentido", sob orientação de Renato Tocantins Sampaio.