quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Oficina de Escalas e Sistemas de Afinação

OuvirAtivo
pesquisa sonora e musical
desenvolvimento humano através da música

Sábado, 1 de Outubro 2011
Das 9:30 à 17:30h
Escalas e Sistemas de Afinação
Esta oficina tem por objetivo dar aos interessados o conhecimento sobre a estruturação de escalas e sistemas de afinação comuns e incomuns à nossa cultura. Iniciando com os sistemas de afinação históricos do ocidente e conhecendo as bases de alguns sistemas não ocidentais, podemos formar uma imagem integrada, dentro de uma perspectiva histórica e cultural, das diversas escalas que usamos para fazer música. A partir desta compreensão são possíveis considerações filosóficas sobre a ordem matemática do mundo, seus arquétipos universais e a relação que estes têm com nossa consciência.


Programa
o Qualidades dos intervalos musicais
o As tendências "maior" e "menor"
o Série harmônica superior e inferior
o Sistemas radial e circular
o A ordenação numérica de tons, intervalos e escalas
o Apreciação de diversas escalas e temperamentos:
Pitagórica, Slendro, Madenda, Persa (div em 10), 1/4 de tom, Tônica mediana, Temperamento eqüidistante e outras.
o O processo da audição
o A consciência como palco da vida interior
o Vivências e exercícios com diversos intervalos, escalas e sistemas de afinação.


--------------------------------------------------------------------------------
Local
MuBE - Museu Brasileiro de Escultura
Rua Alemanha, 221 São Paulo - SP

Docente
Marcelo S. Petraglia

Informações, valores e inscrições
cursos@mube.art.br
Tel. 11 2594 2601

--------------------------------------------------------------------------------
 

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Links de Musicoterapia

União Brasileira de Musicoterapia

Associação de musicoterapia do estado de São Paulo

Associação de Musicoterapia do estado do Rio de Janeiro

Centro de Musicoterapia Benenzon Brasil

Nordic Journal of Music Therapy

terça-feira, 28 de junho de 2011

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Musicoterapia na Alemanha

Musicoterapia na Alemanha

Pesquisas, pesquisas, pesquisas... e a luta pela regulamentação.
Esses dois tópicos que se interligam, resumem o panorama geral da Musicoterapia na Alemanha. Essa é uma discussão inflamada que atualmente movimenta o meio acadêmico por aqui.
O que o musicoterapeuta alemão faz pela regulamentação da profissão? Pesquisas.
O Centro Alemão de Pesquisas em Musicoterapia (Instituto Dr. Viktor Dulger) da Universidade Estadual de Heidelberg tem como objetivo fundamentar a prática musicoterapêutica, principalmente no campo da medicina. Através de uma sofisticada aparelhagem acústico-sonoro musicoterapeutas desenvolvem, atualmente, pesquisas qualitativas e quantitativas em Neurologia, Cardiologia, Oncologia e Dor Crônica. Os resultados comprovado em Neurologia (pacientes com Parkinson, AVC e Tinnitus) ganharam, em 2006, o Premio Acadêmico Estadual "Inovação e embasamento".
A mais nova (e já, por muitos, queridinha) linha de pesquisa "Musicalische Emotionserkennung” (Reconhecimento da emoção através da música), orienta-se no estudo comparativo de parâmetros musicais entre aspectos e interfaces culturais. Brasil, Corea do Sul, Indonésia e Alemanha serão os primeiros a serem "comparados".
A Clínica musicoterapêutica alemã, em geral, baseia-se no modelo Nordoff-Robins de musicoterapia músico-centrada. Aqui, no Sul da Alemanha, desponta desde 2005 o modelo heidelberguiano de musicoterapia, alicerçado por resultados comprovados de pesquisa nos campos psicológicos e médicos.
Embora haja atendimento musicoterapeutico em consultórios particulares, em diversas instituições privadas e até em algumas públicas, trata-se apenas de sua legitimização. Vejam assim: a Musicoterapia é uma profissão legitimada, mas não regulamentada. Tendo como problema central a dificuldade em conseguir conveniar-se a Seguro de Saúde. Aqui na Alemanha, como no Brasil.
Além dos conhecimentos necessários para ingressar numa Universidade, aqui na Alemanha para cursar Musicoterapia, tem-se como pré-requisito o conhecimento musical. No mestrado o conhecimento musical é também de fundamental importância, mas não pré-requisito. Explico: O mestrado em musicoterapia é dividido em dois grupos, o "nicht-konsekutivmasterstudiengang" e o "Konsekutivmarterstudiengang". Esse segundo é destinado só e exclusivamente a musicoterapeutas graduados, portanto essencialmente músicos, sendo o "nicht-konsekutiv" aberto para profissionais de áreas afins.
Aqui na Alemanha temos Faculdades de Musicoterapia nos quatro pontos cardeais, sendo o ponto central e mais divulgado a Universidade de Heidelberg no Sul da Alemanha, onde faço atualmente o meu mestrado.
A Faculdade de Musicoterapia da Universidade de Heidelberg oferece um Serviço de Musicoterapia à Comunidade, que funciona como centro de pesquisa clínica.
A Sociedade Alemã de Musicoterapia tem sido de fundamental importância na luta pelo reconhecimento e regulamentação da profissão. Composta por profissionais sérios e estudantes apaixonados, ganha cada dia mais credibilidade no meio Acadêmico alemão e europeu.
Aqui na Alemanha, como no Brasil, na graduação, cursa-se 8 semestres e parece-me que no resto do mundo também. Muitos fazem cursos de especialização, pós-graduação, doutorado... Apesar desta formação acadêmica, não temos uma profissão regulamentada globalmente. Fazer o que...? Pesquisar e lutar.
Irene Madureira
Correspondente Internacional

Irene Madureira é musicoterapaeuta graduada na Bahia, cursando o mestrado em Musicoterapia.


quinta-feira, 23 de junho de 2011

Musicoterapia e Inclusão Social

TRABALHO E SUBJETIVIDADE
A Musicoterapia como instrumento de inclusão social*
Maria do Socorro Durand Viggiano**
*Trabalho elaborado a partir de monografia apresentada pela autora para conclusão do curso de graduação em Musicoterapia, sob a orientação da Profª Marly Chagas.
**Graduada em Musicoterapia pelo Conservatório Brasileiro de Música do Rio de Janeiro – Centro Universitário.
E-mail: mariaviggiano@uol.com.br
Muito já vi no mundo
O Bem de beijos com o Mal,
O Mal fazendo do Bem
Só um jeito de ser legal,
Aprovado pela lei,
Tudo em nome do social.
Mas os meus versos de agora
Não querem atropelar trem
Só peço à natureza,
Com a força que ela tem,
Que esses versos virem gritos:
“- Não vamos excluir ninguém!”
Mas em meio a tudo isso
Meu leitor, quero dizer
Que esses versos de cordel
Que você começou ler
Não foi só eu que escrevi
Portanto você vai ver
Que loucura é diferença,
Mas não precisa esconder,
Ninguém por ser diferente
Deve desaparecer...
Afinal todos nós temos
O direito de viver.
Resultado da Oficina “Versando sobre memórias”, desenvolvida pela Oficina Cultural Regional Cândido Portinari e a Associação Loucos pela Liberdade, realizada no NAPS Núcleo de Atenção Psicossocial) no período de 17/08 a 28/09/02, em Ribeirão Preto, P1.
1 Extraído da publicação “Loucos pela vida e impregnados de poesia. Literatura de cordel e outros ensaios poéticos”. Coordenação: César Domiciano. Associação Loucos pela liberdade.
RESUMO
Esta monografia pretende discutir a atuação da Musicoterapia como instrumento de inclusão social e a sua contribuição na reabilitação psicossocial. Fornece uma breve visão histórica e discorre sobre o trabalho como forma de constituição do sujeito, e ressalta a falsa dicotomia existente entre trabalho e arte, destacando as oficinas terapêuticas como o lugar onde podem vir a ter o mesmo significado. Tendo como suporte teórico as idéias de Suzana Albornoz, Kenneth Bruscia, Benedetto Saraceno e Maria Erotildes Leal, e considerando também a entrevista realizada com a especialista em Musicoterapia Raquel Siqueira da Silva, busca-se estabelecer uma relação entre Musicoterapia, trabalho e arte, no intuito de possibilitar, através das oficinas terapêuticas, que o trabalho torne-se prazeroso: um instrumento de construção de subjetividade.
1 INTRODUÇÃO
“Um homem é definido pela memória, por sua história, seu nome, suas origens. Ao mesmo tempo, em nosso mundo, um homem é definido pelo trabalho, pela profissão. Ele é o que se faz para viver.” (Werneck, 2003)
Foi a partir de uma casual leitura de um jornal semanal que encontrei, em meio a uma crítica sobre um filme em cartaz - “O homem sem passado” - essa reflexão, que me tocou profundamente. Ela voltou à minha mente repetidas vezes, levando-me a associá-la, inevitavelmente, aos usuários de serviços de saúde mental do Hospital Psiquiátrico de Jurujuba, em Niterói/RJ, onde estagiei e, ampliando ainda mais o foco, a todos aqueles que, em nossa sociedade, são denominados excluídos. “Um homem é definido pela memória, ...”. Que memórias possuem aquelas pessoas que se encontram há anos internadas no Setor de Longa Permanência1? Várias, há tantos anos, que as poucas lembranças que lhes restam se resumem, muitas vezes, a indicações imprecisas dos lugares onde moravam, alguns nomes e histórias confusas de seus passados. Esses retalhos de memória são recolhidos pela equipe do setor como mais uma peça de um quebra-cabeça, num trabalho incansável para resgatar-lhes o passado e devolver-lhes, além do nome e o sobrenome, a sua cidadania.
“Eu lembrei, era a rua do posto de gasolina, tinha padaria, açougue, ... O nome? Eu esqueci...” (P., “morador” do Albergue do setor de Longa Permanência/HPJ)
“...um homem é definido pelo trabalho, pela profissão. Ele é o que se faz para viver.”
“... na maioria das vezes a gente está dentro do hospital por causa de remédio. Se a sociedade não puxasse tanto a gente (e a gente tomar remédio) o doente crônico não fosse tido como maluco, que a sociedade desse 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 chances para a gente. Chance para se reintegrar na sociedade.” (depoimento de J. ao jornal do Albergue, junho de 2003)
Mobilizada com essa questão, indaguei-me se a musicoterapia poderia contribuir com essas pessoas, no sentido de ajudá-las a construir subjetividade através do trabalho. Pensar a musicoterapia como um instrumento eficaz na valorização do sujeito em seu meio social, dando-lhe condições de uma possível transformação e devolvendo-lhe o direito a uma vida digna, participativa e
1 Setor destinado a portadores de transtornos mentais de longo termo, e muitas vezes tachados pejorativamente de “crônicos”.
produtiva, é a questão central que proponho discutir em minha monografia. Recorro a Suzana Albornoz, Kenneth Bruscia, Benedetto Saraceno e outros autores de áreas afins, com a finalidade de embasar minhas idéias. Procurarei, inicialmente, dar uma breve visão histórica e discorrer sobre trabalho como uma forma de auto-realização, de construção de subjetividade e de inclusão social, ressaltando a falsa dicotomia existente entre trabalho e arte e o lugar onde os encontramos tendo a mesma significação, as oficinas terapêuticas. Enfocarei, também, as mudanças na relação do homem com o trabalho, na época da produção artesanal e a partir da industrialização.
A seguir, farei algumas abordagens sobre a Musicoterapia como instrumento social, voltada para a valorização do indivíduo e contribuindo para a sua reinserção social relatando, como exemplos, os trabalhos dos musicoterapeutas Vandré Matias Vidal, com os “Cancioneiros do IPUB”, e Raquel Siqueira da Silva, com “Os Mágicos do Som”.
Foram várias as razões que me moveram para elaborar este trabalho, mas a principal foi por acreditar no grande potencial da Musicoterapia e em sua possibilidade de exercer um papel efetivo na reestruturação da assistência em saúde mental, surgindo como uma das ações terapêuticas empregadas com o objetivo de cuidar, acolher, escutar, respeitar e valorizar, desconstruindo preconceitos e construindo novas formas de inclusão.
2 TRABALHO E SUBJETIVIDADE
2.1 Uma visão histórica
No final do século XVIII, o médico Philippe Pinel, indicado para ser o reformador de um hospital em Paris, que nesta época era um misto de instituição de caridade e assistência social, foi responsável por sua transformação radical, tornando-o o primeiro hospital psiquiátrico moderno.
Essa mudança deu-se a partir da constituição de uma relação terapêutica baseada na autoridade, e de um conjunto de estratégias voltadas para a reeducação da mente alienada, com o nome de tratamento moral; este se constituía no próprio regime disciplinar do asilo e na instituição do trabalho, no caso, trabalho terapêutico, “poderoso remédio contra o delírio”, que contribuía para “resgatar as falsas idéias e chamar a consciência à realidade” (Amarante, 2003, módulo 4, p. 17).
O trabalho como instrumento terapêutico serviria para estimular a vontade e controlar energias, pensamentos e condutas, tendendo a fazer desaparecer os vestígios do delírio e restituindo, por meio de sua disciplina, o interesse do indivíduo pelo mundo objetivo, arrancando-o da apatia, da indolência e da vida vegetativa (ibid, 2003).
Para Foucault, o investimento no trabalho terapêutico revelaria uma tecnologia de poder sobre o corpo que trabalha, pois somente quando o corpo é, ao mesmo tempo, produtivo e submisso é que ele se tornará útil (apud Amarante, 2003).
No primeiro hospital psiquiátrico do Brasil, Hospício de D. Pedro II, inaugurado em 1852, que ficou sob o controle dos religiosos da Santa Casa de Misericórdia, o tratamento moral se baseou apenas no modelo europeu, de Pinel e Esquirol.
Juliano Moreira, ao ser nomeado em 1903, diretor do Hospital Nacional de Alienados (ex-Pedro II), empreendeu reformas e defendeu a ação preventiva e saneadora da educação, do trabalho e da psiquiatria sobre o indivíduo. O trabalho manual, para ele, era uma forma de tratamento das doenças mentais e outras anormalidades, tais como epilepsia, alcoolismo, toxicomania, etc.. Um indivíduo era considerado normal caso aceitasse as injunções morais e econômicas defendidas pela sociedade burguesa (Carvalhal, 1997).
O período posterior à Segunda Guerra Mundial marcou uma fase de profundas reformas, que refletiu também no desenvolvimento de novas abordagens na área da psiquiatria.
A necessidade de mão de obra para o processo de reconstrução fez com que se resgatasse uma parcela da população considerada improdutiva, inclusive os pacientes internados nos hospitais psiquiátricos.
Surgiram algumas experiências de reformas psiquiátricas, embora restritas ao hospital psiquiátrico: a Comunidade terapêutica2 e a Psicoterapia Institucional, as quais objetivavam uma transformação da dinâmica institucional asilar.
Iniciada por Tosquelles, na França, a Psicoterapia Institucional considerava fundamentais a responsabilidade, as melhorias no espaço hospitalar e o trabalho dos pacientes, questionando a segregação, a verticalidade nas relações institucionais e o autoritarismo.
Outras iniciativas posteriores caracterizaram-se pela crítica à estrutura alienante do hospital psiquiátrico, afirmando ser necessária a atuação no próprio meio social do paciente para maior eficácia do tratamento, e pela inauguração de um novo conceito em psiquiatria: o de saúde mental.
A criação de Centros de saúde mental comunitária, nos EUA, na década de 60, tinha como meta não só o tratamento e a prevenção da doença mental, mas também a promoção de saúde mental, e a preocupação com a reabilitação e a reintegração social. Foi nesses centros que se iniciou o atendimento por equipes multidisciplinares. Outros serviços oferecidos à comunidade, tais como as
2 Termo consagrado em 1959, através dos trabalhos do médico inglês Maxwell Jones, “objetivava o envolvimento do sujeito com a própria terapia e com a dos demais” (Amarante, 2003, p.29).
oficinas protegidas, os lares abrigados, os hospitais dia/noite, tinham como meta a desinstitucionalização da assistência psiquiátrica.
A reforma psiquiátrica brasileira, que tomou por referência a reforma psiquiátrica italiana de Franco Basaglia e vem se processando desde a década de 70 até os dias atuais, não se restringiu a técnicas mais modernas de tratamento, procurando práticas que visam principalmente a inclusão, a solidariedade e a cidadania. A reforma não se limita ao tratamento do doente em si, mas do sujeito em sua integralidade, sendo valorizados seus projetos individuais e sua história de vida. A atenção psicossocial tem como características a luta pela cidadania e a inserção na sociedade de pessoas que antes estavam excluídas.
Outra tendência surgida nesse contexto foi a cooperativa de trabalho, uma alternativa para aqueles que não podem permanecer no mercado formal e competitivo de trabalho.
O objetivo desses novos serviços e conceitos criados no âmbito da Reforma é o de mudar conceitos sobre a loucura na sociedade, mostrando a possibilidade dessas pessoas assumirem papéis de músico, artista, militante político, etc.
2.2 Trabalho e constituição do sujeito
Três princípios são fundamentais para a integração do homem com o mundo: a moradia, o trabalho e o lazer (Ferreira, 1999).
Como você se chama? O que você faz? Onde você mora? Dependendo da resposta a essas perguntas, o nosso olhar sobre a pessoa a quem indagamos se alterará: “Eu sou bancário, eu sou vendedor, eu sou ...”. O emprego do verbo ser é freqüentemente utilizado, denotando o grau de importância que o significante trabalho tem para a sua subjetividade, que fica seriamente abalada se, aliado a essa questão, não tem onde morar. (Cavalcanti, 1997).
Trabalhar e morar estão interligados. Trabalhar torna-se condição básica para a produção do sujeito, pois estimula a autonomia pessoal, possibilitando a participação no universo das trocas sociais.
D. mora em um quarto no hospital, no Albergue do Setor de Longa Permanência. Começou a vender balas e biscoitos, em uma pequena caixa, e atualmente tem um carrinho, comprado com o lucro das vendas, com o qual circula por todo o hospital. Disse que quis trabalhar, pois “ficava à toa, pensando besteira”. Ele não toma mais remédios, porque não precisa mais deles, está curado. Não quer ir morar nas residências terapêuticas3, mas quer ter sua própria casa, obtida por meio de sua própria economia.
3 Denominados serviços ou dispositivos residenciais terapêuticos, encontram-se em fase de implantação pela instituição. São casas montadas pelo poder público para servirem como residência de ex-internos de hospitais psiquiátricos ou que não
Na era moderna, “o homem encontra dificuldade em dar sentido à sua vida se não for pelo trabalho” (Albornoz, 1986, p.24). O homem é valorizado pelo que faz; portanto, o exercício do trabalho contribui para a sua auto-estima. Não trabalhar significa, muitas vezes, não existir.
A história parece nos ensinar que, mais do que a busca por condições materiais favoráveis, o que mais impulsiona o homem através dos tempos – individual ou coletivamente – é a vontade de superar obstáculos e enfrentar desafios, de realizar-se como ser individual no coletivo e para o coletivo (Moura, 1994/95).
O trabalho “não é só um dever, mas um direito, pois através dele o homem é homem, se faz, aparece: enquanto cria, entra em relação com os outros, com o seu tempo, cria o seu mundo, se torna reconhecido e deixa impressa no planeta em que vive a marca de sua passagem” (Albornoz, 1986, p.94).
O trabalho deve ser visto não só como fonte de renda, mas também como uma prática de inserção laborativa, promovendo “um processo de articulação do campo de interesses, das necessidades, dos desejos” (Saraceno, 1999, p.126).
Uma outra questão a ser analisada é se um indivíduo que tem no trabalho um elemento definidor de sua identidade pode ser aceito pela sociedade de acordo com o seu modo de ser e de estar no mundo, ou deverá ele forjar um comportamento para isso; neste caso, o trabalho se configurará como uma fonte de sofrimento e desagregação.
De que forma pode-se criar uma atividade de trabalho que tenha valor social e que se constitua em uma alternativa para viabilizar o retorno desses grupos marginalizados pelo sofrimento mental ao mundo de relações de troca, respeitando as suas individualidades?
2.3 Trabalho e arte
Winnicott, Deleuze e Guattari e, no Brasil, a Dra. Nize da Silveira, atribuíram à arte o valor de instrumento terapêutico, pois através dela o homem tem a liberdade para expressar os seus desejos e manifestar a sua criatividade, atualmente reprimida pelas regras e convenções sociais e, assim, reordenar a sua vida subjetiva, bem como restaurar a sua capacidade de se relacionar socialmente.
Rauter (s/d, p.268) cita Guattari, quando diz que trabalho e arte podem ser grandes vetores de existencialização, e que “o trabalho e a arte têm essa função de inserção no mundo da coletividade, de
possuem referência familiar ou um local de moradia, com fins de inserção social. Esses usuários ficam vinculados a uma unidade de cuidados ambulatoriais, cuja equipe se responsabilizará por seu acompanhamento clínico e pela supervisão de suas atividades.
rompimento do isolamento que caracteriza a vivência subjetiva contemporânea”, nos tornando agentes ativos e “não apenas expectadores passivos ou submissos ao que ocorre fora de nós.”
2.4 Trabalho é arte? Arte é trabalho?
Se o sujeito se identifica com o que faz e, através desse trabalho, ele tem a possibilidade de se transformar em um sujeito produtivo, de reconstruir a sua vida social e de resgatar o seu desejo, então podemos dar o mesmo significado a trabalho e arte.
Contudo, “pintar o sete” e “levar a vida na flauta” são expressões populares que fazem parte da nossa cultura e que denotam o preconceito existente em relação à arte.
Se a arte, ao se configurar como meio de expressão, contribui para que o sujeito possa ser reconhecido em seu meio social pelo que produz, modificando as suas relações com esse meio, estaremos afirmando que arte é trabalho.
As oficinas terapêuticas são um lugar onde arte e trabalho podem deixar de ser uma falsa dicotomia e vir a ter o mesmo significado.
Nas oficinas, a produção e a expressão livres dão condições ao sujeito alienado de se transformar num sujeito produtivo, pois, ao mesmo tempo em que ele é estruturado por sua produção, pode exercitar sua possibilidade de escolha e expressão.
Lelis e Romera (1996) afirmam que as oficinas são “laboratórios de reflexão e questionamento das relações humanas”. As oficinas são espaços em que são enfocados aspectos da vida cotidiana de cada um, em relação aos contextos familiar e social, aspectos referentes à cidadania, com seus direitos e deveres, e onde se (re)constroem vínculos, onde se compartilha, com o intuito de romper o isolamento que tanto os caracteriza.
No campo atual da saúde mental, essas ações terapêuticas constituem-se em estratégias para inserção desses indivíduos na sociedade, mas é somente quando o homem se reconhece no que faz é que ele passa a ser reconhecido.
Segundo Hegel, a auto-consciência só se satisfaz em outra auto-consciência. Um homem só satisfaz seu desejo, suas carências humanas, quando outro lhe reconhece o seu valor humano. Hegel ressalta o aspecto positivo do trabalho, porque, ao formar coisas, forma e forja o próprio homem, mas o filósofo desconhece, na economia moderna, a alienação do trabalhador. (apud Albornoz, 1986)
A relação do homem com o trabalho tem mudado radicalmente. No início, quando não havia produção de excedente – estágio de economia isolada e extrativa – o trabalho servia apenas para subsistência do homem, sendo “regido por um sistema de deveres religiosos e familiares”. (Albornoz, 1986, p. 16)
Quando surge a noção de propriedade e produto excedente (produto não imediatamente consumido), começa a existir uma diferenciação de classe social e o trabalho passa a ter uma outra conotação para o homem, podendo até variar: poder para uns; dor, tortura para outros.
A industrialização fez com que o homem perdesse a visão do produto, em cada uma das etapas que acompanham o processo de elaboração até o produto final, ao contrário do que se sucedia na época do produto artesanal, em que o artesão, que trabalhava no lugar onde morava, concretizava a sua idéia de confeccionar um determinado produto para atender uma finalidade específica. Ele organizava livremente seu trabalho, dedicando tempo e esforço necessários para criar algo que fosse bom. Prazer e trabalho coexistiam; não havia a necessidade do lazer.
Para Marx (1980), o homem tem a qualidade de utilizar a sua imaginação e antever o produto acabado, antes mesmo de iniciar a sua elaboração, mas a mecanização da produção, com as chamadas linhas de montagem, incapacita o homem a ter essa visão, desumanizando-o e tornando-o alienado; não existem mais vínculos entre o seu trabalho e a sua vida.
Hoje, o homem anseia desesperadamente pelos fins de semana, mesmo que signifiquem não fazer nada, pois lazer, para ele, é o oposto de trabalho. Torna-se quase impossível que se possa ter um trabalho criativo e que dê prazer.
O livro “O Papalagui” (Scheurmann, s/d) relata a visita de um chefe de uma tribo nos mares do sul, de nome Tuiávii, à Europa, no início do século passado. Chamou a atenção do chefe samoano o fato de que o Papalagui (nome que ele dava para o branco europeu) se orgulhava de ter uma profissão, que se restringia a fazer a mesma coisa toda a vida, o que lhe parecia uma grande limitação. Em sua aldeia, uma choupana era construída coletivamente, pois todos eram capazes de fazer todas as tarefas requeridas; ao final, celebravam e festejavam a tarefa cumprida. Para ele, o trabalho estava relacionado com ausência de competição, com o prazer e com a festa.
O economista Paul Singer (1977) comenta que trabalho, atualmente, não representa atividade produtiva, mas um meio de acesso ao consumo, pois se trabalha para poder consumir, e não para produzir alguma coisa.
Albornoz (1986) fala de uma sociedade ideal, em que o trabalho tenha algum sentido, e que atualmente isso só pode ser encontrado nas atividades de um sábio, de um pesquisador e de um artista, e que a criação seja o objetivo maior e “a base de uma vida social mais feliz”.
3 MUSICOTERAPIA E INCLUSÃO SOCIAL
3.1 Musicoterapia como instrumento social
Bruscia (2000) define que musicoterapia é um processo sistemático de intervenção em que o terapeuta ajuda o cliente a promover a saúde utilizando experiências musicais e as relações que se desenvolvem através delas como forças dinâmicas de mudança.
Se, de acordo com Bruscia, intervir “é agir sobre alguém ou sobre algo para mudar uma situação existente e, conseqüentemente, alterar o curso dos eventos”, então considero que a musicoterapia, através das intervenções centradas na produção e recepção de sons, reflete no estado subjetivo do paciente, fazendo com que “as habilidades adquiridas para encontrar soluções musicais se generalizem para as situações de vida” (Bruscia, 2000, p. 41).
Desse modo e em razão da interdependência de todas as áreas de funcionamento humano, uma mudança musical pode se estender para áreas não-musicais, ou pode sinalizar que uma mudança não-musical, de algum tipo, já ocorreu.
Mas como produzir mudanças de nível tão estruturante em um paciente, que venham a se refletir em mudanças nas suas relações com o meio, e de tal forma que o faça sentir-se integrado, pertencente a ele?
Nossa questão é como desenvolver a capacidade do indivíduo para lidar com os problemas de uma sociedade, instituindo/reconstruindo a sua subjetividade e dotando-o de recursos para trocas sociais e, conseqüentemente, para a cidadania social.
Para Leal, “a subjetividade envolve idéia de autonomia, liberdade, auto-reflexividade, auto-responsabilidade, materialidade de um corpo, particularidades, potencialidades infinitas que conferem cunho próprio e único à personalidade”; é a “expressão da relação entre o indivíduo e o social” e tem um caráter processual (Leal, 2000, p.69, p.81). A idéia de autonomia representa a liberdade humana, a possibilidade de escolha e a capacidade de gerar novas normas e de lidar com o meio em que vive. Quanto maior o grau de autonomia, maior dependência nas relações com pessoas e coisas (Leal, 2000).
No processo musicoterápico, a música é utilizada como uma ferramenta, assim como o instrumento musical, facilitadores da relação terapeuta-paciente. Por meio desses recursos terapêuticos e da abordagem mais apropriada, podemos estimular o paciente a se comunicar, a se expressar, a perceber o outro, a partilhar; e é somente a partir de seu contato com o mundo externo que ele passa a ter consciência de si mesmo.
Trabalhando as potencialidades do paciente estaremos, num processo crescente e contínuo, favorecendo o desenvolvimento das relações interpessoais, da auto-estima e da autoconfiança, estimulando seu poder de escolha e de decisão e, conseqüentemente, contribuindo para integrá-lo em seu grupo social.
Qualquer ato terapêutico deve ser sempre avaliado em função da possibilidade de minimizar o sofrimento daquele que estamos tratando. Podemos usar diferentes recursos e escolher aquele que, naquele momento, será o mais eficaz para promover mudanças.
Quando o sofrimento psíquico se liga à justiça social, incluindo a falta de trabalho, a musicoterapia, através de práxis voltadas para a valorização do indivíduo, pode contribuir para a sua reinserção na sociedade, propiciando, inclusive, uma transformação do imaginário social em torno da doença mental, deslocando “a loucura do espaço médico e psicológico para os diversos espaços do meio social” (Amarante, módulo 10, p. 69), como veremos a seguir.
3.2 Musicoterapia na reabilitação psicossocial
3.2.1 “Os Cancioneiros do IPUB”
Como um dos exemplos da musicoterapia na reabilitação psicossocial de usuários dos serviços de saúde mental, citamos o trabalho de Vandré Matias Vidal (1998), musicoterapeuta do IPUB/UFRJ. Ele relata que a idéia nasceu em 1995, quando era ainda estagiário no Centro de Atenção Diária e atendia os pacientes do Centro de Atenção Psicossocial – CAPS4 do Instituto de Psiquiatria da UFRJ, coordenando um grupo de musicoterapia. Durante as sessões, era freqüente que alguns pacientes trouxessem composições próprias e quisessem mostrá-las; composições que eram cantaroladas também em outros espaços da instituição, tidos como cantos sem resposta ou que produziam incômodos, mas que o fizeram perceber um apelo para um ouvir mais atento .
No ano seguinte, durante o curso de Especialização em Assistência ao Psicótico que cursou no mesmo instituto, propôs a criação de um espaço terapêutico para “estudar as composições musicais trazidas pelos pacientes utilizando a abordagem musicoterápica.”, em razão do significado que as canções tinham para os pacientes e sobre a utilização terapêutica da criação musical. Ao sugerir à equipe do serviço de musicoterapia o registro e a organização das canções em um livro de partituras, além da gravação em fita cassete, veio-lhe “a idéia para o nome do projeto:Songbook – Cancioneiros do IPUB”. Em abril de 1996, foi formado o grupo básico, com seis pacientes. As dez composições
4 Unidades assistenciais locais/regionais que oferecem atendimento de cuidados intermediários entre o regime ambulatorial e a internação hospitalar em turnos, por equipe multiprofissional. Compreende as atividades referentes ao atendimento individual e em grupos, visitas domiciliares, atendimento à família e atividades comunitárias.
iniciais falavam de solidão, desamparo, saudade, violência, e acabaram se transformando “em canções de grande riqueza musical”. Durante as sessões, as canções serviam de objeto intermediário da relação. Em maio do mesmo ano, o grupo foi convidado a fazer sua primeira apresentação musical, no espaço terapêutico recém-criado “Clube da Esquina”. Novos integrantes, novas composições e outras apresentações foram agendadas. A equipe ampliou-se, passando a contar com a participação do psicólogo Marcello Azevedo e da estagiária Simone Lugão, além do mentor do projeto.
Com o financiamento do próprio Instituto de Psiquiatria e com o apoio e incentivo da Fundação Universitária José Bonifácio (FUJB), foi possível a gravação do CD e a produção do songbook.
Quando amanhece o dia, penso numa solução
Vem aquela melodia
Pra espantar a solidão
Eu já tinha desistido, tanta coisa aconteceu
Quando aqui cheguei, a esperança renasceu.
Gosto muito de cantar, desde “pequinininha”
Conheci “mestre” Vandré, e meu sonho aconteceu.
“Cancioneiros do IPUB”, imortais na eternidade
Ficaremos sempre juntos, pra manter essa amizade.
Encontrei minha alegria, no “Cancioneiros do IPUB”
Vou cantando no instituto, minhas canções de todo dia.
Foram dias de incerteza, mergulhado na tristeza
Encontrei uma saída é cantar pra toda vida.
Nós somos os “Cancioneiros”, o som da liberdade
Abrindo a nossa voz, e conquistando amizade.
Nós os “Cancioneiros”, nos amamos com a saudade
E a esperança nos alcança, de vivermos a igualdade.
Mas o canto da liberdade, me deixa assim mexido
Descubro que não existe idade, pra uma nova realidade.
Realidade ... Fundamental ...
(Canção tema dos Cancioneiros – criação coletiva)
O projeto, pioneiro na área, é freqüentemente reavaliado e discutido, levando-se em consideração novas ferramentas que possam auxiliá-lo no desenvolvimento do processo terapêutico.
A composição musical possibilita o estabelecimento de vínculos com o terapeuta, funcionando como objeto intermediário da relação. Os integrantes do grupo, através de uma reflexão sobre sua vivência social, alteram sua comunicação com o meio-ambiente e com as pessoas, assumindo uma nova identidade como músicos e estabelecendo um novo padrão de trocas na rede social, em casa e no trabalho.
Estimular atitudes criativas, além de induzir a mudanças, possibilita a transferência do conhecimento adquirido a situações de realidade (Moura Costa e Negreiros, 1982).
O “Cancioneiros do IPUB” é uma amostra das possibilidades terapêuticas da criação musical.
A vivência grupal oferece o espaço necessário para refletir e acolher futuras crises, que antes acarretavam longo tempo de internação, promovendo também mini-crises que provoquem uma reestruturação psíquica interna e um crescimento a cada apresentação em público, a cada possível frustração ou em várias outras situações mobilizantes. A crise provoca a instabilidade, fazendo com que o paciente abandone os padrões estereotipados de comportamento e amplie seu campo de possibilidades e de vinculações, formando novos laços ou consolidando-os.
“De alguma forma, em algum momento da vida dessas pessoas, a música tornou-se um elemento estruturante, algo que conseguiu proporcionar um alívio e uma diminuição da tensão na difícil hora da crise. Cabe a nós aproveitar esta força; nos aliarmos e fortalecermos esta porção sadia da personalidade, transformando a dor em arte.” (Azevedo, Lugão e Vidal, 1998, p.15)
3.2 “Os Mágicos do Som”
Raquel Siqueira da Silva (2003), psicóloga, especialista em musicoterapia, musicoterapeuta e coordenadora do grupo musical “Mágicos do Som”, após ter desenvolvido o trabalho de musicoterapia durante o período de um ano na Casa de Saúde Volta Redonda, recebeu, em 1996, o convite para iniciar um projeto de musicoterapia no Centro de Atenção Psicossocial – CAPS Usina de Sonhos, que funcionava como um apêndice daquela instituição.
Esse Centro, que só atendia a egressos da Casa de Saúde, possui uma gestão democrática, onde as decisões são coletivizadas, através de assembléias e de outros dispositivos de atendimento em grupo. Desta forma, o projeto de musicoterapia foi elaborado em conjunto, em função das expectativas em relação ao trabalho.
Em uma das assembléias semanais, surgiu a idéia de se criar um grupo musical, que não pôde ser viabilizado logo, pois a formação de um grupo com essa finalidade, naquele momento, excluiria
aqueles que não sabiam tocar nenhum instrumento e o objetivo do projeto era o de incluir, de acordo com o compromisso do CAPS, de reabilitação psicossocial, inserindo o indivíduo na comunidade, com benefício não só para ele, como também para a própria comunidade, afirma a especialista.
O trabalho de musicoterapia foi iniciado e desenvolveu-se com uma estrutura democrática compartilhada, caracterizada pelo cunho de construção coletiva. Os encaminhamentos à musicoterapia eram feitos pela equipe interdisciplinar, pela observação do cotidiano ou pela manifestação do usuário em querer participar.
Decorrido um ano após o início desse trabalho, novamente surgiu a idéia de se formar um grupo musical, motivados pela evolução musical ocorrida em razão da prática de conjunto nas sessões de musicoterapia, embora não houvesse dentre os objetivos do projeto de musicoterapia nenhum de caráter estético mas, principalmente, os de interação intra e intergrupal, elevação da auto-estima e resgate da história pessoal, através de técnicas musicoterápicas, da música, das intervenções e da valorização da matéria musical trazida pelos participantes.
Para se concretizar essa demanda foi elaborado, em março/97, em conjunto com os integrantes da musicoterapia, um projeto de formação do grupo musical, objetivando, além da geração de renda com a atividade, mostrar para uma sociedade que habitualmente segrega, o quanto eles são capazes.
“Isso demonstra que eles sabem o que querem e o profissional de saúde mental tem que ter uma escuta voltada para isso, pois se a gente trabalha em cima do nosso desejo, da nossa ideologia, massacrando a do outro, estaremos mantendo a estrutura do hospício”.
“O pior muro do hospício não é o de concreto, é o que está dentro das pessoas. Uma das formas de romper esse muro é escutando essas pessoas”. (Siqueira, 2003)
Para viabilizar o projeto de formar o grupo musical, eles propuseram ter um espaço diferenciado para os ensaios, em decorrência da preocupação com a questão estética que uma apresentação pública requer, e com a competitividade do mercado musical. Freqüentar os ensaios e acompanhar musicalmente o grupo eram condições para participar.
A primeira apresentação aconteceu no dia 18 de maio de 1997, Dia Nacional da Luta Antimanicomial, exatamente um ano após a estréia dos “Cancioneiros do IPUB”.
Outros convites começaram a surgir, sendo que as decisões quanto aos locais para apresentações, a escolha do repertório enfim, quaisquer decisões são sempre tomadas em conjunto.
A primeira música composta, “Preconceito”, passou a ser considerada um hino do grupo; outras composições se sucederam.
Em 2000, solicitaram e obtiveram o apoio do prefeito da cidade de Volta Redonda para gravação do primeiro CD, que se tornou uma fonte de renda para o grupo.
Apresentam-se há seis anos em várias cidades do Rio de Janeiro; já foram citados em jornais locais e no jornal virtual “Voices”, editado na Noruega, numa coluna escrita pela musicoterapeuta Lia Rejane Mendes Barcellos, com o título “Carnaval e Musicoterapia” onde foi colocado um samba de Escola de Samba e um trecho da música “Preconceito”. Além de terem sido mencionados em reportagens de TV, apresentaram-se na TV Pinel, na TV Record e em eventos da Prefeitura de Volta Redonda, dentre outros.
Atualmente, os treze componentes do grupo “Mágicos do Som” encontram-se gravando o segundo CD.
Raquel considera que hoje eles têm um nível de autonomia, modificando-se as relações: formaram-se casais dentro do grupo, houve o aprimoramento das habilidades musicais, inclusive em vias de seguir carreira musical solo, com alguns deles tocando em bares noturnos. Diz, ainda, que eles saíram dos muros, não se restringiram ao setting musicoterápico, num processo de modificação da vida deles para melhor, inclusive da sua, que está mudando muito a partir dessa experiência.
Preconceito é besteira
Seja de raça ou de cor
Seja de perto ou de longe
O que vale é o amor
Essa idéia afasta, separa, ignora
Causa dor e sofrimento
Só o sabe quem o sente
Dói bastante dentro da gente
Preconceito é besteira
Seja de raça ou de cor
Seja de perto ou de longe
O que vale é o amor
Não somos perigosos
Muito menos desumanos
Temos direito a vida
Temos direito ao amor
Podemos parecer diferentes
Podem nos achar esquisitos
Com paciência mostramos
Que somos bem parecidos
Preconceito é besteira
Seja de raça ou de cor
Seja de perto ou de longe
O que vale é o amor
O amor é uma virtude,
O preconceito, um pecado
Você não tem o direito
De me querer aprisionado
Preconceito é besteira
Seja de raça ou de cor
Seja de perto ou de longe
O que vale é o amor
(Preconceito, de Regina Lúcia Serrão, integrante do grupo “Mágicos do Som”)
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Partindo de uma reflexão inicial, busquei respostas para as minhas indagações. Nesse empreendimento, fui desvendando novos caminhos, que me levaram à conclusão de que as respostas que buscava encontravam-se no meu ponto de partida: a constatação do quanto a musicoterapia, em sua especificidade, vem abrindo canais de comunicação, propiciando que as emoções fluam e os desejos se expressem, construindo subjetividades e reatando vínculos, guiando pessoas por caminhos que as levem, enfim, a novos territórios existenciais.
Ao trilhar os caminhos da intervenção musical, a musicoterapia pode produzir mudanças, trabalhar potencialidades e outros aspectos pessoais e, ainda, contribuir para transformar o imaginário social.
Não objetivei abordar especificamente o trabalho sob o aspecto da remuneração, procurando enfatizar a idéia de trabalho na construção da subjetividade, e não relacioná-lo tão somente a um meio de sustentação.
No decorrer da pesquisa, encontrei a mesma significação para trabalho e arte quando, em ambos, existe o prazer, a produção e a oportunidade de reconhecimento social, como no caso dos “Cancioneiros do IPUB” e de “Os Mágicos do Som”.
Se estabelecermos uma relação entre musicoterapia, trabalho e arte, podemos pensar, então, a musicoterapia enquanto trabalho, como situação produtiva, prazerosa, que cria, valoriza, dignifica e inclui.
Espero que minha visão possa trazer contribuições para que novas discussões possam enriquecer este tema que, talvez, em nada tenha em si de inovador, mas que possa levar o musicoterapeuta a uma reflexão sobre as possibilidades e o alcance de sua prática clínica.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALBORNOZ, Suzana. O que é trabalho. São Paulo: Brasiliense, 1986.
AMARANTE, Paulo (coord.). Saúde Mental. Políticas e Instituições: Programa de Educação à Distância. Rio de Janeiro: FIOTEC/FIOCRUZ. EAD/FIOCRUZ, 2003.
CARVALHAL, Lazara de Azevedo. O pensamento de Juliano Moreira: uma abordagem histórica. In: VENANCIO, Ana Teresa (Org.); LEAL, Erotildes Maria (Org.); DELGADO, Pedro Gabriel (Org.). O Campo da Atenção Psicossocial: Anais do 1º Congresso de Saúde Mental do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Te Cora, Instituto Franco-Basaglia, 1997. p.291-300.
CAVALCANTI, Maria Tavares. Desamparo e Doença Mental. In: FILHO, João Ferreira da Silva e JARDIM, Silvia (Org.). A Danação do Trabalho. Organização do trabalho e sofrimento psíquico. Rio de Janeiro: Te Cora, 1997. p.203-215.
COSTA, Clarice S. de Moura e VIANNA, Martha Negreiros de Sampaio. Musicoterapia – Grupo de Pacientes Psiquiátricos Internados por Períodos Breves. In: Jornal Brasileiro de Psiquiatria. Mai/jun 1982. Volume 31, número 3.
FERREIRA, Gina. As instâncias sociais na prática psiquiátrica: uma questão ética. In: Práticas ampliadas em saúde mental: desafios e construções do cotidiano. Caderno IPUB/ Instituto de Psiquiatria da UFRJ nº 14. Rio de Janeiro, 1999. p.77-81.
FOUCAULT, Michel. História da loucura na idade clássica. São Paulo: Perspectiva, 2002.
LEAL, Erotildes Maria. Clínica e subjetividade contemporânea: questão de autonomia na Reforma Psiquiátrica Brasileira. Trabalho apresentado no II Encontro dos Serviços de Atenção Diária do Rio de Janeiro. Julho/2000.
LELIS, Claudia e ROMERA, Maria Lucia. Musicoterapia nas Oficinas Terapêuticas: trilhando e recriando horizontes. Trabalho apresentado no 8th World Congress of Musicotherapy. Hamburg, Germany. Julho/1996.
MARX, Karl. O Capital. Rio de Janeiro: Civilização, 1980. Livro I, cap. V.
MOURA, Alba Lúcia Fausto. Processo de Trabalho e Saúde: algumas contribuições teóricas. In: Psicologia & Práticas Sociais. Rio de Janeiro: Instituto de Psicologia da UERJ, 1994/95. Volume 2, Número 1.
RAUTER, Cristina. Oficinas para Quê? Uma proposta ético-estético-política para oficinas terapêuticas. In: AMARANTE, Paulo (Org.). Ensaios, Subjetividade, Saúde Mental, Sociedade. s/d.
SARACENO, Benedetto. Libertando identidades – da reabilitação psicossocial à cidadania possível. Rio de Janeiro: Te Cora, 1999.
SCHEURMANN, Erich (Org.). O Papalagui: comentários de Tuiávii, Chefe da Tribo Tiavéa nos mares do sul. São Paulo: Marco Zero, s/d.
SIQUEIRA, Raquel. Entrevista concedida à autora. 2003.
VIDAL, Vandré Matias (Org.); AZEVEDO, Marcelo (Org.) e LUGÃO, Simone (Org.). Songbook e CD. Cancioneiros do IPUB. Rio de Janeiro: Fundação Universitária José Bonifácio – FUJB/Instituto de Psiquiatria – IPUB/UFRJ, 1998.
WERNECK, Alexandre. Revista Programa. Rio de Janeiro: Jornal do Brasil, 28/02/2003. p.7.

Musicoterapia Social

XII Simpósio Brasileiro de Musicoterapia
Palestra
VI Encontro Nacional de Pesquisa em Musicoterapia
II Encontro Nacional de Docência em Musicoterapia
06 a 09/set/2006 - Goiânia-GO
MESA REDONDA 08:Musicoterapia em diferentes settings
MUSICOTERAPIA SOCIAL
Rosemyriam Cunha
1
A denominação de uma prática musicoterapêutica por social nos leva a refletir a respeito do
destinatário dessa prática, ou seja, o ser humano. A pessoa humana é um ser social, necessita do
outro para nascer, sobreviver e viver. Quando inserida em um ambiente, interage, troca
experiências, se constitui como pessoa, transforma-se ao mesmo tempo em que contribui com a
construção e transformação do meio no qual vive. Um agrupamento de pessoas pode se
configurar em uma sociedade quando esse conjunto populacional, vivendo em certa faixa de
tempo e espaço, segue normas comuns e se une pelo sentimento consciente de grupo, de
coletividade ( Houaiss e Villar, 2001).
Dessa forma, a sociedade se constitui em um sistema que se alimenta da ideologia vigente em
uma determinada época, entre os grupos que a compõem. Aspectos distintos como a política, a
educação, a saúde, o trabalho, o lazer, a economia e as pessoas são partes integrantes desse todo
social. Esse sistema forma uma rede complexa e interdependente na qual perpassam os fatos da
vida cotidiana concreta e subjetiva da população (Matin-Baró, 1983) .
A política, a educação, a saúde, o trabalho, o lazer, a economia e as pessoas são partes desse
todo social. Tais aspectos se entrelaçam como cordões tecidos para dar forma e imagem ao
conjunto da realidade social.
São os elementos da cultura, como instrumentos, crenças, pensamentos, costumes,
significados e sentidos que orientam a vida diária das pessoas. Estes passam a nortear as
decisões, iniciativas e as ações que as pessoas praticam nos diversos espaços sociais pelos quais
transitam. A vida cotidiana vem a ser o produto desses valores, prioridades e verdades assumidas
e legitimadas pela população. A sociedade se materializa, dessa forma, numa realidade
1
Adolescência, Universidade Federal do Paraná, Gerontóloga pela Sociedade Brasileira de Geriatria e
Gerontologia, Professora da Faculdade deArtes do Paraná, curso de Musicorerapia.
Doutoranda em Educação, Universidade Federal do Paraná, Mestre em Psicologia da Infância erose05@uol.com.br
Create PDF with PDF4U. If you wish to remove this line, please click here to purchase the full version
XII Simpósio Brasileiro de Musicoterapia
Palestra
VI Encontro Nacional de Pesquisa em Musicoterapia
II Encontro Nacional de Docência em Musicoterapia
06 a 09/set/2006 - Goiânia-GO
contraditória que resulta do somatório de conflitos entre classes e confrontações ideológicas
entre grupos que interagem na dinâmica sócio-cultural onde se inserem (Martin-Baró, 1983).
Visto por essa ótica, o social nos fala de outros, de multiplicidade de pessoas, de
coletividade. Porém, vale lembrar que o homem se constiui como pessoa por meio das interações
e trocas que realiza com outras pessoas no meio em que vive. Logo, mesmo quando sozinho seus
pensamentos e emoções refletem o social no qual transita. A pessoa humana se constrói e se
desenvolve no seio de seu relacionamento social. O social está em nós tanto quando nos
encontramos com outras pessoas quanto quando estamos a sós (Vygotsky, 1999).
O que vem a ser então, a musicoterapia social? Podemos nos aproximar da orientação
sociológica adotada por Ruud (1998) que considera a musicoterapia como uma intervenção
terapêutica que tem por objetivo “aumentar as possibilidades de ação” da pessoa tanto no âmbito
individual como social (p.3). Articulando essa concepção à teoria sócio-histórica, pensamos
numa intervenção que envolve a linguagem musical e corporal da pessoa como meios de
propiciar ações que impliquem na apropriação da consciência de si, de sua trajetória histórica,
ampliando possibilidades de interagir na realidade concreta em que se insere.
Essa idéia pode ser representada na seguinte figura:
1. meio sócio-cultural
2.. sujeitos individuais e
coletivos
3. ação musicoterapêutica e
e musicoterapeuta
Com base nessas colocações, a musicoterapia social assume o espaço representado pelo
gráfico acima, no qual há uma forte interseção entre meio social, cultural e os sujeitos
individuais ou coletivos. Ou seja, o grupo ou a pessoa encontram-se inseridos em um ambiente
social e cultural de acordo com o qual constroem seus significados e sentidos. O musicoterapeuta
compartilha do mesmo meio, encontrando-se em interseção com esses mesmos fatores. A ação
musicoterapêutica emerge matizada por traços culturais que são comuns ao grupo e ao
musicoterapeuta. Este, porém, conserva um distanciamento necessário ao estabelecimento de
Create PDF with PDF4U. If you wish to remove this line, please click here to purchase the full version
XII Simpósio Brasileiro de Musicoterapia
Palestra
VI Encontro Nacional de Pesquisa em Musicoterapia
II Encontro Nacional de Docência em Musicoterapia
06 a 09/set/2006 - Goiânia-GO
objetivos pautados na sua leitura clínica e na interpretação terapêutica que realiza a respeito dos
membros que compõem o grupo.
Estabelecida essa proposição, volto-me para algumas situações práticas que suscitaram
questionamentos pertinentes ao tema em desenvolvimento.
Há seis anos atrás, quando da realização do I Congresso de Geriatria e Gerontologia do
Mercosul, em Foz do Iguaçu, discutia-se a necessidade de se estender intervenções preventivas e
paliativas de saúde física, mental e social para parcelas ampliadas da população. O trabalho
como grupos e comunidades viria com o objetivo de relativizar o modelo de atendimento
individualizado até então vigente.
Foi montada uma grande arena na praça da cidade e todas as tardes a população carente da
cidade era convidada a participar de uma programação. Palestras, orientações de profissionais
das diversas especialidades, trabalhos práticos e vivências, entre as quais a Musicoterapia,
sucediam-se nos encontros.
Trabalhar com uma praça lotada de pessoas muito mais instigou do que assustou. Que tipo
de musicoterapia seria aquela que longe de abordar a pessoa na sua individualidade deveria agir
como uma força integradora de um grupo numeroso que nem sequer se conhecia? Quais as
expectativas daquele grupo quanto ao trabalho do qual participavam? Até que ponto haveria
consistência e validade naquela ação? Que resultados poderiam ser esperados?
Fato é que a comunidade aderiu com entusiasmo e durante nossa interação a praça ressoava
em sonorizações, embalava-se em movimentos corporais e harmonizava-se em canções. A
experiência foi pontual e de curta duração, porém a receptividade com que aderiram às ações
musicais propostas deu a entender que foram de encontro a alguns dos anseios daquela
comunidade. Essa constatação me levou a acreditar que aquele grupo vivenciou mais do que
momentos de lazer e diversão. A energia que emanava de suas vozes contava mais de força e
poder do que de um relaxamento físico e emocional.
Anos depois, trabalhando em um programa social com jovens egressos da rua, percebi que
só conseguiria uma aproximação autêntica ao grupo na medida em que me interasse da realidade
cotidiana da qual compartilhavam. Era preciso que conhecesse os dramas e dilemas próprios do
meio sócio-cultural de onde vinham. A ação musicoterapêutica só se revelou capaz de quebrar
leis de silêncio, amenizar códigos de comportamento e efetivar uma comunicação mediada pela
Create PDF with PDF4U. If you wish to remove this line, please click here to purchase the full version
XII Simpósio Brasileiro de Musicoterapia
Palestra
VI Encontro Nacional de Pesquisa em Musicoterapia
II Encontro Nacional de Docência em Musicoterapia
06 a 09/set/2006 - Goiânia-GO
musicalidade do grupo quando fui considerada como aliada capaz de lutar em prol do projeto
grupal.
Entremeando essas vivências, o constante interagir com grupos de idosos também foi
revelando a necessidade de uma postura profissional capaz de entender que nossos
conhecimentos científicos só teriam valor, ali, entre a comunidade, na medida em que fossem
somados aos conhecimentos trazidos pelo grupo, à história desse grupo e aos próprios projetos e
anseios traçados pelo grupo.
Uma reflexão cuidadosa a respeito destas vivências e das dúvidas ali suscitadas deixa
transparecer que a postura do musicoterapeuta se transforma e difere daquela indicada no
primeiro gráfico. No desenho que se segue, os sujeitos, o grupo, o musicoterapeuta e a ação
musicoterapêutica encontram-se inseridos no contexto sócio-cultural sem que haja um
distanciamento de saberes. A representação gráfica demonstra que a prática se altera. O
musicoterapeuta precisa se apropriar de tal forma do contexto, da realidade em que o grupo se
insere, a ponto de poder, junto com esse agrupamento populacional delinear objetivos e práticas
que se voltem ao interesse da própria comunidade.
Essa postura indica para a construção de uma relação na qual o musicoterapeuta e os
membros da comunidade são participantes e agentes da construção do conhecimento. Nessa
maneira de agir, metas e objetivos são estabelecidos de acordo com os anseios e necessidades
que grupo considera como de importância para sua vivência diária. O trabalho musicoterapêutico
se volta para os interesses que emergem do grupo e que são condicionados pelo contexto de sua
realidade cotidiana.
1. meio sócio-cultural
2. sujeitos, grupos
3. ação
musicoerapêutica, musicoterapeuta
Parece que a representação desses modelos de ação explicita uma significativa diferença
entre duas posturas a princípio bem próximas uma da outra. Aí é que essa reflexão também
concretiza questionamentos. Vamos entender comunidades como aqueles grupos de pessoas que
Create PDF with PDF4U. If you wish to remove this line, please click here to purchase the full version
XII Simpósio Brasileiro de Musicoterapia
Palestra
VI Encontro Nacional de Pesquisa em Musicoterapia
II Encontro Nacional de Docência em Musicoterapia
06 a 09/set/2006 - Goiânia-GO
se organizam em relações sociais democráticas buscando a realização de seus direitos e deveres,
conforme a psicóloga social Sílvia Lane (1995). Haverá possibilidade de uma prática
musicoterapêutica capaz de abranger comunidades? Seria essa a musicoterapia que aqui
chamamos de social? Ou seria ela uma musicoterapia comunitária? Quais objetivos e
fundamentos que norteariam essa prática? E como o musicoterapeuta poderia agir nesse
contexto?
Creio que não existem, de pronto, respostas para estas questões. Bruscia (2000) considera
que a musicoterapia comunitária está vocacionada a preparar as pessoas para participações na
comunidade, como também a sensibilizar a própria comunidade a inserir as pessoas no cotidiano
comunitário. O autor cita como exemplo o trabalho do musicoterapeuta norueguês Stige (2002)
relatando o processo no qual um grupo de pessoas com deficiência mental, que desejavam tocar
na banda da cidade, foram trabalhados, juntamente com a comunidade, no sentido de alcançar
seus objetivos. Nesse caso percebe-se que a comunidade, o grupo e o musicoterapeuta agiram em
conjunto em prol da consecução de metas comuns.
É sabido que existem musicoterapeutas trabalhando com grupos terapêuticos e outros
inseridos em ações junto a agrupamentos populacionais. Estariam todos eles agindo em prol de
uma musicoterapia comunitária ou social? Como eles definem seu trabalho? Para obter as
respostas precisamos ouvir os profissionais que atuam nesse campo. Com base em reflexões
advindas de nossas percepções e vivências poderemos compreender nossa própria prática e
também colaborar com a construção do corpo teórico da musicoterapia.
A ação musicoterapêutica citada até aqui diz respeito às relações que se estabelecem por
meio de produções sonoro-rítmico-musicais entre o musicoterapeuta e as pessoas que participam
do trabalho musicoterapêutico. Com isto pretende-se englobar todas as formas de interação, de
comunicação que se produzem no contexto musicoterapêutico e as produções que daí resultam.
A prática tem mostrado que, no decorrer das ações musicoterapêuticas, tanto pessoas
individuais como coletivas, constroem repertórios de manifestações melódicas e rítmicas que
lhes são significativas. As sonoridades que emergem, no contexto da musicoterapia, possuem um
significado e um sentido afetivo e cultural que são construídos no decorrer das trocas sociais que
ocorrem na vida cotidiana das pessoas (Cunha, 2003).
Dessa forma, tais canções, ritmos, estilos musicais e muitas vezes sons característicos, se
tornam especiais para um determinado momento histórico vivenciado por pessoas concretas. São
Create PDF with PDF4U. If you wish to remove this line, please click here to purchase the full version
XII Simpósio Brasileiro de Musicoterapia
Palestra
VI Encontro Nacional de Pesquisa em Musicoterapia
II Encontro Nacional de Docência em Musicoterapia
06 a 09/set/2006 - Goiânia-GO
pessoas que percebem, que sentem, que imaginam, que se emocionam, que buscam alternativas
de sobrevivência, que escolhem, que criam, se alegram e se entristecem. Isso implica em que a
produção musical que se concretiza por meio do trabalho musicoterapêutico poderá amplificar as
possibilidades de conscientização, coesão e ação dessas pessoas, grupos e comunidades.
Vygotsky (1999) aprofunda nossa compreensão a respeito do papel social da arte, nesse
caso, da música, em seu livro
efeito se processa em um indivíduo isolado, isso não significa que suas raízes e essência sejam
individuais (p.314).
Pela ótica desse autor, a arte é considerada como uma técnica social do sentimento, um
instrumento por meio do qual a sociedade incorpora os aspectos íntimos e pessoais do ser
humano. O sentimento suscitado pela música torna-se pessoal, advindo do social. A arte seria
uma condensação de vida cuja força influencia o sentimento e a nossa vontade. A arte seria um
centro de atração cuja força poderia modificar a vontade em um sentido novo, revivendo
emoções, paixões, que se encontravam em estado indefinido ou imóvel (316).
Vygotsky segue ainda especificando seu pensamento
“a música me obriga a esquecer de mim mesmo, a minha
verdadeira situação, ela me transporta para alguma outra
situação, estranha a mim: sob o influxo da música tenho a
impressão de sentir o que propriamente não sinto, de entender o
que não entendo, de poder o que não posso...” (p.317).
O repertório sonoro que emerge de grupos e comunidades, dessa forma, refere-se a vidas
reais. Ele toma forma ao propiciar a organização de pensamentos e emoções. Longe de ser
arbitrário, o repertório sonoro revela os sujeitos que o compõem. A música como manifestação
da criação humana, feita pelo homem, destinada para o homem, se manifesta como um fenômeno
social que expressa intenções, percepções, histórias e afetos da pessoa individual e coletiva.
A musicoterapia, ao trabalhar com sons, melodias, ritmos, rimas e outras formas da
expressividade humana, recebe, no contexto do trabalho comunitário, o lugar da troca que se
concretiza em repertórios sonoros que representam o grupo. Repertórios com os quais o grupo se
identifica, se fortalece e se reconhece.
Sob esse prisma, a intervenção musicoterapêutica resultará num conjunto de conteúdos que
apóiam identidades individuais e grupais, já que elementos que servem ao grupo também devem
ter efeitos no nível individual (Martin-Baró, 1983). A musicalidade grupal surge então, como
Psicologia da Arte. Para esse autor a arte é o social em nós e se seu
Create PDF with PDF4U. If you wish to remove this line, please click here to purchase the full version
XII Simpósio Brasileiro de Musicoterapia
Palestra
VI Encontro Nacional de Pesquisa em Musicoterapia
II Encontro Nacional de Docência em Musicoterapia
06 a 09/set/2006 - Goiânia-GO
uma ferramenta a favor da conscientização e fortalecimento das pessoas e do grupo. Como forma
de expressão da comunidade, como um elemento aglutinador e fortalecedor de dinâmicas sociais
e individuais.
Como musicoterapeutas temos a missão de saber manejar a música e seus parâmetros para
longe da ideologização e da alienação. Podemos visualizá-la no papel de denúncia e confissão.
Também utilizá-la para alegrar, unir, celebrar. Que nossa ação, seja ela social ou comunitária,
possa oferecê-la às pessoas como forma legítima de expressão de seus projetos. Que possa
fortalecer sua essência humana na busca por transformações que favoreçam uma vivência
consciente e digna.
Referências Bibliográficas
Bruscia, K. (2000).
Cunha, R.
linguagem musical.
Psicologia da Infância e da Adolescência, Universidade Federal do Paraná. Curitiba, Paraná.
Houaiss, A .Villar, M.
Objetiva.
Lane, S.(1995). Avanços da Psicologia Social na América Latina. S. Lane e B. Sawaia (Org.),
Definindo Musicoterapia. 2 ed. Rio de Janeiro: Enelivros.Jovens no espaço interativo da musicoterapia: o que objetivam por meio daDissertação de mestrado não publicada, curso de Pós-Graduação emDicionário Houaiss da Língua Portuguesa.(2001). Rio de janeiro:
Novas veredas da Psicologia Social
Martin-Baró, I.(1983).
Ruud, Even.(1998)
Barcelona Publishers.
Stige, B.(2002)
Publishers.
Vygotsky, L. S. (1999).
. (pp. 67-82). São Paulo: Brasiliense.Psicologia Social II desde Centroamérica. San Salvador: UCA Editora.Music Therapy: improvisation, communication and culture. Gilsum:Culture-Centered Music-Therapy. 4 White Brook Road Gislum: BarcelonaPsicologia da Arte. São Paulo:Martins Fontes.

Assistência Social vai oferecer musicoterapia à população.

Confiram!

http://www.mds.gov.br/saladeimprensa/radiomaisbrasil/boletins-mais-brasil/boletins-2011/31302011%20-%20Assistencia%20social%20vai%20oferecer%20musicoterapia%20a%20populacao_1.4.2011.mp3/view

Musicoterapia: Uma Visão Social

Musicoterapia uma Visão Social
Ronaldo Milleco      

O tema desse Fórum, Clínica Musicoterápica - limites e transgressões, abre um campo repleto de possibilidades de reflexão sobre nossas práticas. A idéia de limites remete a um certo campo de ação e às margens que o delimitam. Essas margens são transpostas ao longo do tempo, na medida em que nos aventuramos por novas áreas, realizando pequenas transgressões: oncologia pediátrica, AIDS, síndromes de Alzhaimer e de Hett, drogadição, crianças e adolescentes em conflito com a lei, tercei¬ra idade e estimulação essencial, são alguns dos desafios que musicoterapeutas estão encarando, ampliando, assim, o campo de ação e suas margens. Mesmo nos campos iniciais, denomina¬dos "doença mental, deficiência mental e deficiência física", podemos observar avanços que representam também, pequenas transgressões que ampliam e/ou diversificam as formas de ação.
Outro limite que vem sendo transposto com o surgimento da Revista Brasileira de Musicoterapia, organizada pela UBAM, é o campo da produção teórica, que deve estar à serviço de nossas práticas, tanto no exercício clínico como na reflexão conceitual sobre o complexo som - ser humano - som. No Fórum do ano passado (1997), Marly Chagas fez uma interessante articulação entre vários artigos publicados nos dois primeiros números da Revista. Temos material suficiente e de qualidade para os próximos dois números (4 e 5). Por outro lado, com a quantidade de monografias produzidas este ano (por força das circunstâncias), encontramos um número considerável de novas pequenas transgressões, fruto do exercício de produzir teoria, de pensar e sistematizar uma prática. Precisamos ampliar o espaço de publicações de trabalhos.
A AMT-RJ criou um ponto de encontro que tem sido um bom espaço de troca. Creio que podemos ampliar esse tipo de iniciativa, algo como um Centro de Estudos, um Centro de Pesquisas, que viabilize a troca de experiências, que pense e encaminhe novos projetos de pesquisa. Creio que, voltando nossa atenção para os desafios sociais que o mundo urbano contemporâneo nos apresenta, acharemos novas inserções, ampliando, assim, as pequenas e necessárias transgressões, que fazem parte da história e do desenvolvimento de nossa carreira, das novas frentes que ampliam o campo de ação e suas margens.
Quando comecei a trabalhar com educação musical na escola OGA MITÁ, em 1994, pude observar como a grande maioria das crianças e pré-adolescentes absorve com enorme facilidade os produtos oferecidos pelos meios de comunicação de massa. Apesar de relativamente restrito a uma parcela da classe média da zona norte carioca, percebe-se que o universo dessa escola reflete um fenômeno mais amplo, presente nos grandes centros urbanos como um todo, onde a Indústria Cultural estabelece determinados padrões, tentando imprimir uma uniformidade da estética musical em grandes parcelas da população. Minha inquietação foi se transformando em questão que mereceu um estudo mais atento. Abordei o tema na monografia do Curso de Especialização em Musicoterapia (1996).
Alguns autores são fundamentais para o embasamento teórico e conceitual desse tema:
      Theodor Adorno, sobretudo com seus conceitos de 'Indústria Cultural' e 'Regressão da Audição', e Felix Guattari com os conceitos de 'Produção Maquínica de Subjetividade'. 'Territórios Existenciais' e 'Processos de Singularização'. Apesar da distância teórica e política entre esses autores, há um ponto de contato entre eles, pois ambos sustentam posições críticas que têm como alvo, a massificação cultural e a globalização do capitalismo com todas as suas conseqüências objetivas e subjetivas. Dois outros conceitos permitem a aproximação teórica com o campo da Musicoterapia: Identidade Sonora Cultural e Endoculturação Musical, pro¬postos por Grebe de Vicuna.
Partindo da crítica aos rumos que a Indústria Cultural vem tomando, venho desenvolvendo uma reflexão sobre o que Guattari denomina Processos de Subjetivação articulando-os com o que denomino Territórios Existenciais em Música, classificados como Territórios Massificados, Territórios Marginais e Territórios de Singularização. No último Simpósio Brasileiro, comecei a desenvolver mais detalhadamente esse mapeamento da relação do Homem contemporâneo com o fenômeno musical, sendo este, um tema central na pesquisa de Mestrado em Edu¬cação Musical que estou realizando. Apresentarei aqui, resumidamente, o mapeamento desses três territórios:


Territórios Massificados

Esse conceito está diretamente relacionado ao que Adorno e Hokheimer postularam em há cinqüenta anos (1948) como Indústria Cultural, levando criticamente a sério, o papel desta na economia psíquica das massas, não se curvando diante do monopólio impresso pelo processo de massificação, pois sua ideologia está comprometida com o conformismo, não com a consciência.
Esse tipo de fenômeno favorece, então, a construção de uma "pseudo-identidade sonora cultural" pautada pelo modismo e pela música feita para o consumo em grande escala. A relação que o público estabelece com esse tipo de produto musical é caracterizada pela repetição, em dois sentidos:
      - Por um lado, a massa é repetidora, sem possibilidades concretas de estabelecer uma relação de troca.
      - Por outro, leva ao que Adorno denomina de regressão da audição, ou seja, uma audição infantilizada pela falta de liberdade de escolha, uma vez que a Indústria Cultural apresenta massivamente a mesma estrutura musical, travestida com novas roupagens. Dessa forma, se estabelece uma padronização da estética musical, pois o que é oferecido é tão semelhante ou idêntico, que a predileção da massa fica comprometida, confundindo o gostar e o reconhecer.

Creio que o processo de massificação, nesse contexto, vem empobrecendo a identidade sonora musical de grandes parcelas da população. Estamos inseridos em um modelo sócio-econômico que se perpetua e se fortalece, através da sua sofisticada Indústria Cultural. Wisnik afirma ser evidente que se trata de um complexo industrial-ideológico que procura explorar ao máximo a força penetrante da música: o extraordinário poder de propagação social que vem de sua própria materialidade, do seu caráter objetivo/subjetivo (está fora, mas está dentro do ouvinte) e simultâneo (vivido por muitas pessoas ao mesmo tempo), além do enraizamento popular de sua produção no Brasil.
Um exemplo bem atual e característico de nossa cultura é a proliferação de grupos de samba/pagode, os Tchans da vida, apresentando uma estrutura musical repetitiva, sem nenhuma inventividade, explorando a sensualidade nos movimentos coreográficos e nas letras, imprimindo uma padronização estética que é imitada pela massa 'replicante'. Da mesma forma, já vivemos a era Xuxa, a do Funk feito pra tocar no rádio, a da lambada que veio do Pará via Paris , entre outras, formando "ondas" descartáveis e de breve duração, ou seja, um tipo de música feito para o consumo em grande escala, onde a Indústria Cultural, apropriando-se de alguns elementos do manancial da cultura popular, gera seus produtos de fácil acesso às massas.
O quê significa, no desenvolvimento da Identidade Sonora, a Indústria Cultural massificar produtos que geram um fenômeno como a erotização precoce, gerando, à reboque, alterações biológicas? Pesquisas estão apontando a idade cada vez mais precoce com que meninas vivem a menarca e engravidam. Que relação tem esse fato, com o sucesso com o público infantil, de músicas com conteúdos explicitamente sexuais em suas letras e coreografias? Muniz Sodré, afirma que a atenção excessiva que se dá à "cultura do espetáculo orquestrada pela mídia (.) é violenta, sim, nada pacífica", gerando uma certa 'homogeneização midiática de adultos e crianças. Acrescenta que "não se transfere o infantil de um angélico e idealizado 'oratórium' para um aberto e deslavado 'fornicatorium', sem conseqüências psi¬cossociais, sem um certo grau de promiscuidade abusiva".
'Ir aonde o povo está' , como canta Milton Nascimento, é mais do que necessário. Mas haveria, à parte qualquer regressivo moralismo cultural, como garantir alguma referência ética e estética no fazer artístico musical? Creio que essas questões estão imbricadas em outras mais abrangentes, como a restrita democratização dos meios de comunicação (o que dificulta o acesso às informações e expressões culturais), como a aparente¬mente insolúvel questão educacional.




Territórios Marginais

Em contraposição ao processo de massificação, que favorece uma aparente homogeneidade do gosto popular, alguns segmentos buscam se afirmar como "os diferentes", procurando manter¬se à margem do sistema, negando assim, o modelo massificado. Reivindicam o status de marginais ao instituído, formando "tribos" que constroem seus próprios códigos coletivos e individuais. Guattari quando menciona o caráter transnacional da cultura rock, nos fala que a juventude, embora esmagada pelas relações econômicas e pelo poder da mídia, desenvolve suas distâncias de singularização, construindo um apseudo-identidade cultural que possibilita um mínimo de Territórios Existenciais.
No Encontro Latino-americano de Musicoterapia (1993) apresentei um trabalho intitulado MUSICOTERAPIA E SAÚ¬DE , onde levantava algumas reflexões sobre o que aqui denomino Territórios Marginais. Citei os grupos de Heavy Metal, de RAP e os bailes Funks como representantes de segmentos sociais excluídos dos meios de produção dominantes, refletindo em suas produções musicais, a inexistência de perspectivas de constru¬ção de projetos de vida.

Dois aspectos são importantes destacar:

      - Uma "pseudo-identidade cultural" pode apontar para o fato de que a negação do massificado e/ou instituído, tem como ponto de referência, exatamente o massifica¬do e/ou instituído;
      - A Indústria Cultural costuma levar em consideração as margens do processo de massificação, podendo, em determinado momento, transformar o produto marginal em produto para o consumo em grande escala, ou até "produzir" falsos territórios marginais por sua própria conta e interesse.


Territórios de Singularização

Ao condensar dois conceitos propostos por Guattari (Territórios Existenciais e Processos de Singularização), busco definir uma área de diferenciação que se constitui independentemente do processo de massificação. Não se trata aqui, da negação deste, mas da possibilidade de se afirmar singularmente diante das diversas formas de expressão musical. Ao discutir o conceito de Regressão da Audicão, Wisnik afirma ser este "um fenômeno que de fato ocorre em níveis de realidade que são, de um certo modo, avassaladores", mas que não devemos acreditar que ele descreve tudo, pois assim perderíamos a perspectiva "de qualquer atuação política bem como o senso de identificação das forças em jogo" . O que está em jogo aqui, é a possibilidade de se desenvolver modos de subjetivação singularizados, ou seja, auto-modelações que se afirmam, distanciadas das modelizações impressas pela ordem capitalística. Não estamos falando de erudição, pois tanto a arte popular como a erudita são igualmente passíveis de estandardização e de singularização.
Vicuña, ao postular o processo de Endoculturação Musical, o define como "a aquisição gradual de uma experiência auditiva e de internalização da música que se dá no âmbito do meio sócio-cultural correspondente". Aponta tanto o ambiente familiar como os meios de difusão como fatores decisivos na "consolidação de uma "base musical muitas vezes indiscriminada e contraditória", influindo "decisivamente nas respostas ao estímulo sonoro, nas atitudes e valores musicais".
O que caracteriza este Território é a possibilidade de transitar em diferentes campos da cultura, construindo um senso estético e crítico, aberto a diversas formas de expressão musical. Muitas vezes estaremos remando contra a correnteza da massificação, transgredindo o instituído, preservando a diversidade cultural, construindo um devir diferencial, favorecendo uma percepção/expressão mais atenta à arte musical.
Se os modos de produção capitalística de subjetividade têm levado "às terríveis segregações que a humanidade conhece hoje", por outro lado, "também podem ser inflectidos em direção a vias libertadoras", afirma Guattari . Fazemos parte desse jogo de forças, queiramos ou não. O que podemos fazer com isso? Creio que uma de nossas tarefas, é favorecer a emergência de Territórios de Singularização.
A clínica musicoterápica oferece um vasto campo de atuação, reflexão e pesquisa, seja qual for o campo de trabalho que es colhemos, seja ele desenvolvido em instituições ou em consultórios. É no fazer coletivo que estabelecemos nosso território, transpondo limites e tecendo o conhecimento teórico sobre nossa prática. Os desafios estão aí, nos apresentando limites e possibilidades de transgressões. Com a perspectiva da regulamentação profissional, temos que construir e ampliar nosso campo de ação, construir nossa parte nessa história.


Bibliografia

ADORNO, Theodor - A Indústria Cultural.
In: Theodor W. Adorno Org. Gabriel Cohn. São Paulo: Ática. 1986. pp. 92-99. (1967)
ADORNO, Theodor - O Fetichismo na Música e a Regressão da Audição. In: Os Pensadores - Textos escolhidos 1 W. Benjamin, M. Horkheimer, T. Adorno, J. Hambemas. Segunda Edição. - São Paulo: Abril Cultural, 1983 (1963). pp. 165-191
BENENZON, Rolando O. - Teoria da Musicoterapia. São Paulo: Sumus, 1988
CURIÚN, Aharonián - Conversaciones sobre Música, Cultura y Identidad. Montevideu: Ombú, 1992.
GUATTARI, Felix e ROLNIK, S - Micropolítica, Cartografia do Desejo. Petrópolis, RJ: Vozes, 1986.
GUATTARI, Felix - As Três Ecologias. - Campinas, SP: Papirus, 1991.
GUATTARI, Felix - Da Produção de Subjetividade. In: Imagem Máquina-A era das tecnologias do virtual Org André Parente. Rio de Janeiro: Ed.34, 1993. pp. 177-191.
GUATTARI, Felix - Caosmose. Um Novo Paradigma Estético. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992.
MILLECCO, Ronaldo - Os Ruídos da Massificação na Construção da Identidade Sonora Cultural. Monografia de Conclusão do Curso de Especialização em Musicoterapia - Rio de Janeiro: CBM, 1996
SCHURMANN, E. - A Música como Linguagem Histórica. São Paulo: Brasiliense:Brasília: CNPq, 1989.
SODRÉ, Muniz - No Balanço do Tchan. Rio de Janeiro: Jornal do Brasil, Art., 1 Cad, p. 9, 13/jan /1997
VICUÑA, Maria Esther Grebe - Antropologia de la Música: Nuevas Orien¬taciones y Apartes Teóricos en la Invetigación Musical. Revista Musical Chilena XXXV no 153-155. pp. 52-57. 1981
WISNIK, José Miguel - Música, Problema Intelectual e Político. Revista Teoria e Debate Fundação Perseu Abramo – jul-ago/set 1997. pp.58-63.
WISNIK. José Miguel- O minuto e o milênio ou Por favor, professor, uma década de cada vez. In: ANOS 70 - Música popular. Rio de Janeiro:Europa Emp. Gráf.; pp. 7-24, 1979.