Musicoterapia uma Visão Social Ronaldo Milleco O tema desse Fórum, Clínica Musicoterápica - limites e transgressões, abre um campo repleto de possibilidades de reflexão sobre nossas práticas. A idéia de limites remete a um certo campo de ação e às margens que o delimitam. Essas margens são transpostas ao longo do tempo, na medida em que nos aventuramos por novas áreas, realizando pequenas transgressões: oncologia pediátrica, AIDS, síndromes de Alzhaimer e de Hett, drogadição, crianças e adolescentes em conflito com a lei, tercei¬ra idade e estimulação essencial, são alguns dos desafios que musicoterapeutas estão encarando, ampliando, assim, o campo de ação e suas margens. Mesmo nos campos iniciais, denomina¬dos "doença mental, deficiência mental e deficiência física", podemos observar avanços que representam também, pequenas transgressões que ampliam e/ou diversificam as formas de ação. Outro limite que vem sendo transposto com o surgimento da Revista Brasileira de Musicoterapia, organizada pela UBAM, é o campo da produção teórica, que deve estar à serviço de nossas práticas, tanto no exercício clínico como na reflexão conceitual sobre o complexo som - ser humano - som. No Fórum do ano passado (1997), Marly Chagas fez uma interessante articulação entre vários artigos publicados nos dois primeiros números da Revista. Temos material suficiente e de qualidade para os próximos dois números (4 e 5). Por outro lado, com a quantidade de monografias produzidas este ano (por força das circunstâncias), encontramos um número considerável de novas pequenas transgressões, fruto do exercício de produzir teoria, de pensar e sistematizar uma prática. Precisamos ampliar o espaço de publicações de trabalhos. A AMT-RJ criou um ponto de encontro que tem sido um bom espaço de troca. Creio que podemos ampliar esse tipo de iniciativa, algo como um Centro de Estudos, um Centro de Pesquisas, que viabilize a troca de experiências, que pense e encaminhe novos projetos de pesquisa. Creio que, voltando nossa atenção para os desafios sociais que o mundo urbano contemporâneo nos apresenta, acharemos novas inserções, ampliando, assim, as pequenas e necessárias transgressões, que fazem parte da história e do desenvolvimento de nossa carreira, das novas frentes que ampliam o campo de ação e suas margens. Quando comecei a trabalhar com educação musical na escola OGA MITÁ, em 1994, pude observar como a grande maioria das crianças e pré-adolescentes absorve com enorme facilidade os produtos oferecidos pelos meios de comunicação de massa. Apesar de relativamente restrito a uma parcela da classe média da zona norte carioca, percebe-se que o universo dessa escola reflete um fenômeno mais amplo, presente nos grandes centros urbanos como um todo, onde a Indústria Cultural estabelece determinados padrões, tentando imprimir uma uniformidade da estética musical em grandes parcelas da população. Minha inquietação foi se transformando em questão que mereceu um estudo mais atento. Abordei o tema na monografia do Curso de Especialização em Musicoterapia (1996). Alguns autores são fundamentais para o embasamento teórico e conceitual desse tema: Theodor Adorno, sobretudo com seus conceitos de 'Indústria Cultural' e 'Regressão da Audição', e Felix Guattari com os conceitos de 'Produção Maquínica de Subjetividade'. 'Territórios Existenciais' e 'Processos de Singularização'. Apesar da distância teórica e política entre esses autores, há um ponto de contato entre eles, pois ambos sustentam posições críticas que têm como alvo, a massificação cultural e a globalização do capitalismo com todas as suas conseqüências objetivas e subjetivas. Dois outros conceitos permitem a aproximação teórica com o campo da Musicoterapia: Identidade Sonora Cultural e Endoculturação Musical, pro¬postos por Grebe de Vicuna. Partindo da crítica aos rumos que a Indústria Cultural vem tomando, venho desenvolvendo uma reflexão sobre o que Guattari denomina Processos de Subjetivação articulando-os com o que denomino Territórios Existenciais em Música, classificados como Territórios Massificados, Territórios Marginais e Territórios de Singularização. No último Simpósio Brasileiro, comecei a desenvolver mais detalhadamente esse mapeamento da relação do Homem contemporâneo com o fenômeno musical, sendo este, um tema central na pesquisa de Mestrado em Edu¬cação Musical que estou realizando. Apresentarei aqui, resumidamente, o mapeamento desses três territórios: Territórios Massificados Esse conceito está diretamente relacionado ao que Adorno e Hokheimer postularam em há cinqüenta anos (1948) como Indústria Cultural, levando criticamente a sério, o papel desta na economia psíquica das massas, não se curvando diante do monopólio impresso pelo processo de massificação, pois sua ideologia está comprometida com o conformismo, não com a consciência. Esse tipo de fenômeno favorece, então, a construção de uma "pseudo-identidade sonora cultural" pautada pelo modismo e pela música feita para o consumo em grande escala. A relação que o público estabelece com esse tipo de produto musical é caracterizada pela repetição, em dois sentidos: - Por um lado, a massa é repetidora, sem possibilidades concretas de estabelecer uma relação de troca. - Por outro, leva ao que Adorno denomina de regressão da audição, ou seja, uma audição infantilizada pela falta de liberdade de escolha, uma vez que a Indústria Cultural apresenta massivamente a mesma estrutura musical, travestida com novas roupagens. Dessa forma, se estabelece uma padronização da estética musical, pois o que é oferecido é tão semelhante ou idêntico, que a predileção da massa fica comprometida, confundindo o gostar e o reconhecer. Creio que o processo de massificação, nesse contexto, vem empobrecendo a identidade sonora musical de grandes parcelas da população. Estamos inseridos em um modelo sócio-econômico que se perpetua e se fortalece, através da sua sofisticada Indústria Cultural. Wisnik afirma ser evidente que se trata de um complexo industrial-ideológico que procura explorar ao máximo a força penetrante da música: o extraordinário poder de propagação social que vem de sua própria materialidade, do seu caráter objetivo/subjetivo (está fora, mas está dentro do ouvinte) e simultâneo (vivido por muitas pessoas ao mesmo tempo), além do enraizamento popular de sua produção no Brasil. Um exemplo bem atual e característico de nossa cultura é a proliferação de grupos de samba/pagode, os Tchans da vida, apresentando uma estrutura musical repetitiva, sem nenhuma inventividade, explorando a sensualidade nos movimentos coreográficos e nas letras, imprimindo uma padronização estética que é imitada pela massa 'replicante'. Da mesma forma, já vivemos a era Xuxa, a do Funk feito pra tocar no rádio, a da lambada que veio do Pará via Paris , entre outras, formando "ondas" descartáveis e de breve duração, ou seja, um tipo de música feito para o consumo em grande escala, onde a Indústria Cultural, apropriando-se de alguns elementos do manancial da cultura popular, gera seus produtos de fácil acesso às massas. O quê significa, no desenvolvimento da Identidade Sonora, a Indústria Cultural massificar produtos que geram um fenômeno como a erotização precoce, gerando, à reboque, alterações biológicas? Pesquisas estão apontando a idade cada vez mais precoce com que meninas vivem a menarca e engravidam. Que relação tem esse fato, com o sucesso com o público infantil, de músicas com conteúdos explicitamente sexuais em suas letras e coreografias? Muniz Sodré, afirma que a atenção excessiva que se dá à "cultura do espetáculo orquestrada pela mídia (.) é violenta, sim, nada pacífica", gerando uma certa 'homogeneização midiática de adultos e crianças. Acrescenta que "não se transfere o infantil de um angélico e idealizado 'oratórium' para um aberto e deslavado 'fornicatorium', sem conseqüências psi¬cossociais, sem um certo grau de promiscuidade abusiva". 'Ir aonde o povo está' , como canta Milton Nascimento, é mais do que necessário. Mas haveria, à parte qualquer regressivo moralismo cultural, como garantir alguma referência ética e estética no fazer artístico musical? Creio que essas questões estão imbricadas em outras mais abrangentes, como a restrita democratização dos meios de comunicação (o que dificulta o acesso às informações e expressões culturais), como a aparente¬mente insolúvel questão educacional. |
Territórios Marginais Em contraposição ao processo de massificação, que favorece uma aparente homogeneidade do gosto popular, alguns segmentos buscam se afirmar como "os diferentes", procurando manter¬se à margem do sistema, negando assim, o modelo massificado. Reivindicam o status de marginais ao instituído, formando "tribos" que constroem seus próprios códigos coletivos e individuais. Guattari quando menciona o caráter transnacional da cultura rock, nos fala que a juventude, embora esmagada pelas relações econômicas e pelo poder da mídia, desenvolve suas distâncias de singularização, construindo um apseudo-identidade cultural que possibilita um mínimo de Territórios Existenciais. No Encontro Latino-americano de Musicoterapia (1993) apresentei um trabalho intitulado MUSICOTERAPIA E SAÚ¬DE , onde levantava algumas reflexões sobre o que aqui denomino Territórios Marginais. Citei os grupos de Heavy Metal, de RAP e os bailes Funks como representantes de segmentos sociais excluídos dos meios de produção dominantes, refletindo em suas produções musicais, a inexistência de perspectivas de constru¬ção de projetos de vida. Dois aspectos são importantes destacar: - Uma "pseudo-identidade cultural" pode apontar para o fato de que a negação do massificado e/ou instituído, tem como ponto de referência, exatamente o massifica¬do e/ou instituído; - A Indústria Cultural costuma levar em consideração as margens do processo de massificação, podendo, em determinado momento, transformar o produto marginal em produto para o consumo em grande escala, ou até "produzir" falsos territórios marginais por sua própria conta e interesse. Territórios de Singularização Ao condensar dois conceitos propostos por Guattari (Territórios Existenciais e Processos de Singularização), busco definir uma área de diferenciação que se constitui independentemente do processo de massificação. Não se trata aqui, da negação deste, mas da possibilidade de se afirmar singularmente diante das diversas formas de expressão musical. Ao discutir o conceito de Regressão da Audicão, Wisnik afirma ser este "um fenômeno que de fato ocorre em níveis de realidade que são, de um certo modo, avassaladores", mas que não devemos acreditar que ele descreve tudo, pois assim perderíamos a perspectiva "de qualquer atuação política bem como o senso de identificação das forças em jogo" . O que está em jogo aqui, é a possibilidade de se desenvolver modos de subjetivação singularizados, ou seja, auto-modelações que se afirmam, distanciadas das modelizações impressas pela ordem capitalística. Não estamos falando de erudição, pois tanto a arte popular como a erudita são igualmente passíveis de estandardização e de singularização. Vicuña, ao postular o processo de Endoculturação Musical, o define como "a aquisição gradual de uma experiência auditiva e de internalização da música que se dá no âmbito do meio sócio-cultural correspondente". Aponta tanto o ambiente familiar como os meios de difusão como fatores decisivos na "consolidação de uma "base musical muitas vezes indiscriminada e contraditória", influindo "decisivamente nas respostas ao estímulo sonoro, nas atitudes e valores musicais". O que caracteriza este Território é a possibilidade de transitar em diferentes campos da cultura, construindo um senso estético e crítico, aberto a diversas formas de expressão musical. Muitas vezes estaremos remando contra a correnteza da massificação, transgredindo o instituído, preservando a diversidade cultural, construindo um devir diferencial, favorecendo uma percepção/expressão mais atenta à arte musical. Se os modos de produção capitalística de subjetividade têm levado "às terríveis segregações que a humanidade conhece hoje", por outro lado, "também podem ser inflectidos em direção a vias libertadoras", afirma Guattari . Fazemos parte desse jogo de forças, queiramos ou não. O que podemos fazer com isso? Creio que uma de nossas tarefas, é favorecer a emergência de Territórios de Singularização. A clínica musicoterápica oferece um vasto campo de atuação, reflexão e pesquisa, seja qual for o campo de trabalho que es colhemos, seja ele desenvolvido em instituições ou em consultórios. É no fazer coletivo que estabelecemos nosso território, transpondo limites e tecendo o conhecimento teórico sobre nossa prática. Os desafios estão aí, nos apresentando limites e possibilidades de transgressões. Com a perspectiva da regulamentação profissional, temos que construir e ampliar nosso campo de ação, construir nossa parte nessa história. Bibliografia ADORNO, Theodor - A Indústria Cultural. In: Theodor W. Adorno Org. Gabriel Cohn. São Paulo: Ática. 1986. pp. 92-99. (1967) ADORNO, Theodor - O Fetichismo na Música e a Regressão da Audição. In: Os Pensadores - Textos escolhidos 1 W. Benjamin, M. Horkheimer, T. Adorno, J. Hambemas. Segunda Edição. - São Paulo: Abril Cultural, 1983 (1963). pp. 165-191 BENENZON, Rolando O. - Teoria da Musicoterapia. São Paulo: Sumus, 1988 CURIÚN, Aharonián - Conversaciones sobre Música, Cultura y Identidad. Montevideu: Ombú, 1992. GUATTARI, Felix e ROLNIK, S - Micropolítica, Cartografia do Desejo. Petrópolis, RJ: Vozes, 1986. GUATTARI, Felix - As Três Ecologias. - Campinas, SP: Papirus, 1991. GUATTARI, Felix - Da Produção de Subjetividade. In: Imagem Máquina-A era das tecnologias do virtual Org André Parente. Rio de Janeiro: Ed.34, 1993. pp. 177-191. GUATTARI, Felix - Caosmose. Um Novo Paradigma Estético. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992. MILLECCO, Ronaldo - Os Ruídos da Massificação na Construção da Identidade Sonora Cultural. Monografia de Conclusão do Curso de Especialização em Musicoterapia - Rio de Janeiro: CBM, 1996 SCHURMANN, E. - A Música como Linguagem Histórica. São Paulo: Brasiliense:Brasília: CNPq, 1989. SODRÉ, Muniz - No Balanço do Tchan. Rio de Janeiro: Jornal do Brasil, Art., 1 Cad, p. 9, 13/jan /1997 VICUÑA, Maria Esther Grebe - Antropologia de la Música: Nuevas Orien¬taciones y Apartes Teóricos en la Invetigación Musical. Revista Musical Chilena XXXV no 153-155. pp. 52-57. 1981 WISNIK, José Miguel - Música, Problema Intelectual e Político. Revista Teoria e Debate Fundação Perseu Abramo – jul-ago/set 1997. pp.58-63. WISNIK. José Miguel- O minuto e o milênio ou Por favor, professor, uma década de cada vez. In: ANOS 70 - Música popular. Rio de Janeiro:Europa Emp. Gráf.; pp. 7-24, 1979. |
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