quinta-feira, 23 de junho de 2011

Musicoterapia Social

XII Simpósio Brasileiro de Musicoterapia
Palestra
VI Encontro Nacional de Pesquisa em Musicoterapia
II Encontro Nacional de Docência em Musicoterapia
06 a 09/set/2006 - Goiânia-GO
MESA REDONDA 08:Musicoterapia em diferentes settings
MUSICOTERAPIA SOCIAL
Rosemyriam Cunha
1
A denominação de uma prática musicoterapêutica por social nos leva a refletir a respeito do
destinatário dessa prática, ou seja, o ser humano. A pessoa humana é um ser social, necessita do
outro para nascer, sobreviver e viver. Quando inserida em um ambiente, interage, troca
experiências, se constitui como pessoa, transforma-se ao mesmo tempo em que contribui com a
construção e transformação do meio no qual vive. Um agrupamento de pessoas pode se
configurar em uma sociedade quando esse conjunto populacional, vivendo em certa faixa de
tempo e espaço, segue normas comuns e se une pelo sentimento consciente de grupo, de
coletividade ( Houaiss e Villar, 2001).
Dessa forma, a sociedade se constitui em um sistema que se alimenta da ideologia vigente em
uma determinada época, entre os grupos que a compõem. Aspectos distintos como a política, a
educação, a saúde, o trabalho, o lazer, a economia e as pessoas são partes integrantes desse todo
social. Esse sistema forma uma rede complexa e interdependente na qual perpassam os fatos da
vida cotidiana concreta e subjetiva da população (Matin-Baró, 1983) .
A política, a educação, a saúde, o trabalho, o lazer, a economia e as pessoas são partes desse
todo social. Tais aspectos se entrelaçam como cordões tecidos para dar forma e imagem ao
conjunto da realidade social.
São os elementos da cultura, como instrumentos, crenças, pensamentos, costumes,
significados e sentidos que orientam a vida diária das pessoas. Estes passam a nortear as
decisões, iniciativas e as ações que as pessoas praticam nos diversos espaços sociais pelos quais
transitam. A vida cotidiana vem a ser o produto desses valores, prioridades e verdades assumidas
e legitimadas pela população. A sociedade se materializa, dessa forma, numa realidade
1
Adolescência, Universidade Federal do Paraná, Gerontóloga pela Sociedade Brasileira de Geriatria e
Gerontologia, Professora da Faculdade deArtes do Paraná, curso de Musicorerapia.
Doutoranda em Educação, Universidade Federal do Paraná, Mestre em Psicologia da Infância erose05@uol.com.br
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contraditória que resulta do somatório de conflitos entre classes e confrontações ideológicas
entre grupos que interagem na dinâmica sócio-cultural onde se inserem (Martin-Baró, 1983).
Visto por essa ótica, o social nos fala de outros, de multiplicidade de pessoas, de
coletividade. Porém, vale lembrar que o homem se constiui como pessoa por meio das interações
e trocas que realiza com outras pessoas no meio em que vive. Logo, mesmo quando sozinho seus
pensamentos e emoções refletem o social no qual transita. A pessoa humana se constrói e se
desenvolve no seio de seu relacionamento social. O social está em nós tanto quando nos
encontramos com outras pessoas quanto quando estamos a sós (Vygotsky, 1999).
O que vem a ser então, a musicoterapia social? Podemos nos aproximar da orientação
sociológica adotada por Ruud (1998) que considera a musicoterapia como uma intervenção
terapêutica que tem por objetivo “aumentar as possibilidades de ação” da pessoa tanto no âmbito
individual como social (p.3). Articulando essa concepção à teoria sócio-histórica, pensamos
numa intervenção que envolve a linguagem musical e corporal da pessoa como meios de
propiciar ações que impliquem na apropriação da consciência de si, de sua trajetória histórica,
ampliando possibilidades de interagir na realidade concreta em que se insere.
Essa idéia pode ser representada na seguinte figura:
1. meio sócio-cultural
2.. sujeitos individuais e
coletivos
3. ação musicoterapêutica e
e musicoterapeuta
Com base nessas colocações, a musicoterapia social assume o espaço representado pelo
gráfico acima, no qual há uma forte interseção entre meio social, cultural e os sujeitos
individuais ou coletivos. Ou seja, o grupo ou a pessoa encontram-se inseridos em um ambiente
social e cultural de acordo com o qual constroem seus significados e sentidos. O musicoterapeuta
compartilha do mesmo meio, encontrando-se em interseção com esses mesmos fatores. A ação
musicoterapêutica emerge matizada por traços culturais que são comuns ao grupo e ao
musicoterapeuta. Este, porém, conserva um distanciamento necessário ao estabelecimento de
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objetivos pautados na sua leitura clínica e na interpretação terapêutica que realiza a respeito dos
membros que compõem o grupo.
Estabelecida essa proposição, volto-me para algumas situações práticas que suscitaram
questionamentos pertinentes ao tema em desenvolvimento.
Há seis anos atrás, quando da realização do I Congresso de Geriatria e Gerontologia do
Mercosul, em Foz do Iguaçu, discutia-se a necessidade de se estender intervenções preventivas e
paliativas de saúde física, mental e social para parcelas ampliadas da população. O trabalho
como grupos e comunidades viria com o objetivo de relativizar o modelo de atendimento
individualizado até então vigente.
Foi montada uma grande arena na praça da cidade e todas as tardes a população carente da
cidade era convidada a participar de uma programação. Palestras, orientações de profissionais
das diversas especialidades, trabalhos práticos e vivências, entre as quais a Musicoterapia,
sucediam-se nos encontros.
Trabalhar com uma praça lotada de pessoas muito mais instigou do que assustou. Que tipo
de musicoterapia seria aquela que longe de abordar a pessoa na sua individualidade deveria agir
como uma força integradora de um grupo numeroso que nem sequer se conhecia? Quais as
expectativas daquele grupo quanto ao trabalho do qual participavam? Até que ponto haveria
consistência e validade naquela ação? Que resultados poderiam ser esperados?
Fato é que a comunidade aderiu com entusiasmo e durante nossa interação a praça ressoava
em sonorizações, embalava-se em movimentos corporais e harmonizava-se em canções. A
experiência foi pontual e de curta duração, porém a receptividade com que aderiram às ações
musicais propostas deu a entender que foram de encontro a alguns dos anseios daquela
comunidade. Essa constatação me levou a acreditar que aquele grupo vivenciou mais do que
momentos de lazer e diversão. A energia que emanava de suas vozes contava mais de força e
poder do que de um relaxamento físico e emocional.
Anos depois, trabalhando em um programa social com jovens egressos da rua, percebi que
só conseguiria uma aproximação autêntica ao grupo na medida em que me interasse da realidade
cotidiana da qual compartilhavam. Era preciso que conhecesse os dramas e dilemas próprios do
meio sócio-cultural de onde vinham. A ação musicoterapêutica só se revelou capaz de quebrar
leis de silêncio, amenizar códigos de comportamento e efetivar uma comunicação mediada pela
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musicalidade do grupo quando fui considerada como aliada capaz de lutar em prol do projeto
grupal.
Entremeando essas vivências, o constante interagir com grupos de idosos também foi
revelando a necessidade de uma postura profissional capaz de entender que nossos
conhecimentos científicos só teriam valor, ali, entre a comunidade, na medida em que fossem
somados aos conhecimentos trazidos pelo grupo, à história desse grupo e aos próprios projetos e
anseios traçados pelo grupo.
Uma reflexão cuidadosa a respeito destas vivências e das dúvidas ali suscitadas deixa
transparecer que a postura do musicoterapeuta se transforma e difere daquela indicada no
primeiro gráfico. No desenho que se segue, os sujeitos, o grupo, o musicoterapeuta e a ação
musicoterapêutica encontram-se inseridos no contexto sócio-cultural sem que haja um
distanciamento de saberes. A representação gráfica demonstra que a prática se altera. O
musicoterapeuta precisa se apropriar de tal forma do contexto, da realidade em que o grupo se
insere, a ponto de poder, junto com esse agrupamento populacional delinear objetivos e práticas
que se voltem ao interesse da própria comunidade.
Essa postura indica para a construção de uma relação na qual o musicoterapeuta e os
membros da comunidade são participantes e agentes da construção do conhecimento. Nessa
maneira de agir, metas e objetivos são estabelecidos de acordo com os anseios e necessidades
que grupo considera como de importância para sua vivência diária. O trabalho musicoterapêutico
se volta para os interesses que emergem do grupo e que são condicionados pelo contexto de sua
realidade cotidiana.
1. meio sócio-cultural
2. sujeitos, grupos
3. ação
musicoerapêutica, musicoterapeuta
Parece que a representação desses modelos de ação explicita uma significativa diferença
entre duas posturas a princípio bem próximas uma da outra. Aí é que essa reflexão também
concretiza questionamentos. Vamos entender comunidades como aqueles grupos de pessoas que
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se organizam em relações sociais democráticas buscando a realização de seus direitos e deveres,
conforme a psicóloga social Sílvia Lane (1995). Haverá possibilidade de uma prática
musicoterapêutica capaz de abranger comunidades? Seria essa a musicoterapia que aqui
chamamos de social? Ou seria ela uma musicoterapia comunitária? Quais objetivos e
fundamentos que norteariam essa prática? E como o musicoterapeuta poderia agir nesse
contexto?
Creio que não existem, de pronto, respostas para estas questões. Bruscia (2000) considera
que a musicoterapia comunitária está vocacionada a preparar as pessoas para participações na
comunidade, como também a sensibilizar a própria comunidade a inserir as pessoas no cotidiano
comunitário. O autor cita como exemplo o trabalho do musicoterapeuta norueguês Stige (2002)
relatando o processo no qual um grupo de pessoas com deficiência mental, que desejavam tocar
na banda da cidade, foram trabalhados, juntamente com a comunidade, no sentido de alcançar
seus objetivos. Nesse caso percebe-se que a comunidade, o grupo e o musicoterapeuta agiram em
conjunto em prol da consecução de metas comuns.
É sabido que existem musicoterapeutas trabalhando com grupos terapêuticos e outros
inseridos em ações junto a agrupamentos populacionais. Estariam todos eles agindo em prol de
uma musicoterapia comunitária ou social? Como eles definem seu trabalho? Para obter as
respostas precisamos ouvir os profissionais que atuam nesse campo. Com base em reflexões
advindas de nossas percepções e vivências poderemos compreender nossa própria prática e
também colaborar com a construção do corpo teórico da musicoterapia.
A ação musicoterapêutica citada até aqui diz respeito às relações que se estabelecem por
meio de produções sonoro-rítmico-musicais entre o musicoterapeuta e as pessoas que participam
do trabalho musicoterapêutico. Com isto pretende-se englobar todas as formas de interação, de
comunicação que se produzem no contexto musicoterapêutico e as produções que daí resultam.
A prática tem mostrado que, no decorrer das ações musicoterapêuticas, tanto pessoas
individuais como coletivas, constroem repertórios de manifestações melódicas e rítmicas que
lhes são significativas. As sonoridades que emergem, no contexto da musicoterapia, possuem um
significado e um sentido afetivo e cultural que são construídos no decorrer das trocas sociais que
ocorrem na vida cotidiana das pessoas (Cunha, 2003).
Dessa forma, tais canções, ritmos, estilos musicais e muitas vezes sons característicos, se
tornam especiais para um determinado momento histórico vivenciado por pessoas concretas. São
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pessoas que percebem, que sentem, que imaginam, que se emocionam, que buscam alternativas
de sobrevivência, que escolhem, que criam, se alegram e se entristecem. Isso implica em que a
produção musical que se concretiza por meio do trabalho musicoterapêutico poderá amplificar as
possibilidades de conscientização, coesão e ação dessas pessoas, grupos e comunidades.
Vygotsky (1999) aprofunda nossa compreensão a respeito do papel social da arte, nesse
caso, da música, em seu livro
efeito se processa em um indivíduo isolado, isso não significa que suas raízes e essência sejam
individuais (p.314).
Pela ótica desse autor, a arte é considerada como uma técnica social do sentimento, um
instrumento por meio do qual a sociedade incorpora os aspectos íntimos e pessoais do ser
humano. O sentimento suscitado pela música torna-se pessoal, advindo do social. A arte seria
uma condensação de vida cuja força influencia o sentimento e a nossa vontade. A arte seria um
centro de atração cuja força poderia modificar a vontade em um sentido novo, revivendo
emoções, paixões, que se encontravam em estado indefinido ou imóvel (316).
Vygotsky segue ainda especificando seu pensamento
“a música me obriga a esquecer de mim mesmo, a minha
verdadeira situação, ela me transporta para alguma outra
situação, estranha a mim: sob o influxo da música tenho a
impressão de sentir o que propriamente não sinto, de entender o
que não entendo, de poder o que não posso...” (p.317).
O repertório sonoro que emerge de grupos e comunidades, dessa forma, refere-se a vidas
reais. Ele toma forma ao propiciar a organização de pensamentos e emoções. Longe de ser
arbitrário, o repertório sonoro revela os sujeitos que o compõem. A música como manifestação
da criação humana, feita pelo homem, destinada para o homem, se manifesta como um fenômeno
social que expressa intenções, percepções, histórias e afetos da pessoa individual e coletiva.
A musicoterapia, ao trabalhar com sons, melodias, ritmos, rimas e outras formas da
expressividade humana, recebe, no contexto do trabalho comunitário, o lugar da troca que se
concretiza em repertórios sonoros que representam o grupo. Repertórios com os quais o grupo se
identifica, se fortalece e se reconhece.
Sob esse prisma, a intervenção musicoterapêutica resultará num conjunto de conteúdos que
apóiam identidades individuais e grupais, já que elementos que servem ao grupo também devem
ter efeitos no nível individual (Martin-Baró, 1983). A musicalidade grupal surge então, como
Psicologia da Arte. Para esse autor a arte é o social em nós e se seu
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uma ferramenta a favor da conscientização e fortalecimento das pessoas e do grupo. Como forma
de expressão da comunidade, como um elemento aglutinador e fortalecedor de dinâmicas sociais
e individuais.
Como musicoterapeutas temos a missão de saber manejar a música e seus parâmetros para
longe da ideologização e da alienação. Podemos visualizá-la no papel de denúncia e confissão.
Também utilizá-la para alegrar, unir, celebrar. Que nossa ação, seja ela social ou comunitária,
possa oferecê-la às pessoas como forma legítima de expressão de seus projetos. Que possa
fortalecer sua essência humana na busca por transformações que favoreçam uma vivência
consciente e digna.
Referências Bibliográficas
Bruscia, K. (2000).
Cunha, R.
linguagem musical.
Psicologia da Infância e da Adolescência, Universidade Federal do Paraná. Curitiba, Paraná.
Houaiss, A .Villar, M.
Objetiva.
Lane, S.(1995). Avanços da Psicologia Social na América Latina. S. Lane e B. Sawaia (Org.),
Definindo Musicoterapia. 2 ed. Rio de Janeiro: Enelivros.Jovens no espaço interativo da musicoterapia: o que objetivam por meio daDissertação de mestrado não publicada, curso de Pós-Graduação emDicionário Houaiss da Língua Portuguesa.(2001). Rio de janeiro:
Novas veredas da Psicologia Social
Martin-Baró, I.(1983).
Ruud, Even.(1998)
Barcelona Publishers.
Stige, B.(2002)
Publishers.
Vygotsky, L. S. (1999).
. (pp. 67-82). São Paulo: Brasiliense.Psicologia Social II desde Centroamérica. San Salvador: UCA Editora.Music Therapy: improvisation, communication and culture. Gilsum:Culture-Centered Music-Therapy. 4 White Brook Road Gislum: BarcelonaPsicologia da Arte. São Paulo:Martins Fontes.

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