Além dos elementos neurológicos e comportamentais, imagina-se que o sistema imune também possa ser investigado como uma fonte de observações dos resultados da intervenção musicoterapêutica. Para realizar tais avaliações é necessária ou a análise de saliva ou a análise sanguínea. Esta concepção emergente apresenta poucos estudos ainda. Contudo, seus resultados podem mostrar algumas possibilidades até então não discutidas sobre a aplicabilidade da musicoterapia. Entre algumas evidências, cabe citar o impacto do uso de tambores em musicoterapia no aumento do número de células killer, leucócitos e imunoglobulinas em adultos saudáveis, por exemplo. Ao comparar o grupo que recebeu o tratamento em relação ao grupo controle, houve um aumento estatisticamente significativo dos aspectos imunológicos citados. Outro exemplo foi o estudo das relações entre leucócitos e receptores dopaminérgicos DRD4, música e autismo. A música pode proporcionar uma ativação do sistema dopaminérgico aumentando a sensação de prazer e recompensa. Se a musicoterapia pode auxiliar na melhora do sistema imune, fica a pergunta: o que o aumento de células de defesa influencia no organismo do indivíduo? A resposta mais conhecida seria que este aumento eleva a capacidade de proteção do ser humano e dessa forma este sujeito está menos propenso a doenças. No entanto, outro aspecto relevante é que o aumento de células de defesa, principalmente no sangue, favorece a produção de neurotransmissores básicos como a dopamina. Ou seja, o estímulo aos aspectos imunológicos, mediante as relações e experiências musicais, pode sintetizar substâncias que normalmente são obtidas apenas com a administração de medicamentos. Isto fica evidente no estudo das relações entre leucócitos, receptores dopaminérgicos DRD4, música e autismo publicados no artigo "Increased dopamine DRD4 receptor mRNA expression in lymphocytes of musicians and autistic individuals: bridging the music-autism connection" (Neuroendocrinology Letters). A música pode proporcionar uma ativação do sistema dopaminérgico aumentando a sensação de prazer e recompensa, que está mais ativada em músicos e em crianças com autismo (talvez esta seja uma das explicação para o interesse dos autistas por música). Objetiva-se realizar uma revisão dos trabalhos a respeito da influência da musicoterapia sobre o sistema imunológico, por meio de busca de publicações indexadas nas bases de dados LILACS, ScIELO, Medline, COCHRANE, Scopus, Isi web of Knowledge, segundo os descritores: "music therapy", "music" , "immunology" e "immunologic". Resultados: Dentre os poucos trabalhos encontrados, a maior parte trata dos efeitos da música em modelos animais; aqueles testados em humanos foram na sua maioria desenvolvidos com adultos. Estes estudos mostraram que a musicoterapia influencia positivamente nos aspectos celulares que estão envolvidos com o sistema de defesa do organismo humano. Alguns trabalhos relacionaram este benefício imune com elementos comportamentais como a diminuição dos níveis de ansiedade e dos comportamentos depressivos segundo protocolos formais de avaliação. Espera-se que o esclarecimento sobre este tema auxilie os musicoterapeutas a compreenderem os efeitos do tratamento musicoterapêutico sobre outra perspectiva. As respostas, procuradas até então no cérebro e nas manifestações de comportamento, podem ser na verdade iniciadas em aspectos imunológicos, já que estes regulam a ação dos neurotransmissores que exercem um papel determinante no conjunto de funcionamento do indivíduo. A musicoterapia, portanto, passa a ter uma análise microscópica dos seus efeitos. Esta deve ser considerada como um fenômeno complexo e recursivo, não reduzida a uma relação de causa e efeito.
Palavras-chave: efeitos, musicoterapia, imunológicoAutores: Gustavo Schulz Gattino: mestre pelo programa de pós-graduação em Saúde da Criança e do Adolescente da UFRGS (2009), musicoterapeuta graduado pelas Faculdades EST (2007). Doutorando no programa de Saúde da Criança e do Adolescente da UFRGS, professor de Bioestatística no curso de Nutrição da UFRGS e membro do ProTID.
Julia Medeiros Sorrentino: possui curso técnico profissionalizante em Biotecnologia pela UFRGS (2007). Atualmente é aluna de graduação do curso de Farmácia da UFRGS, bolsista de Iniciação Científica do CNPq no Grupo de estudos em Plasticidade Neuroglial da UFRGS e membro do ProTID.
Tamara da Silva Vaccaro: possui Mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas: Bioquímica, na especialidade de Genética Molecular Humana pela UFRGS (2008), graduação em Farmácia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com ênfase em Análises Clínicas (Bioquímica) pela UFRGS (2003). Atualmente é doutoranda no programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas: Bioquímica da UFRGS e membro do ProTID.
Carmem Gottfried: possui doutorado em Bioquimica pela UFRGS (2000), com bolsa sanduíche na Universidade de Newcastle, Austrália (1997), mestrado em Bioquimica pela UFRGS (1996) e graduação em Farmácia pela UFSM (1991). Atualmente é professor adjunto III da UFRGS (início em 2005), ministrando disciplinas para o curso de graduação em Biomedicina. Orientadora nos Programas de Pós-Graduação em Ciências-Biológicas: Bioquímica (conceito 7) e Neurociências (conceito 5). Coordenadora substituta do Programa de Pós-Graduação em Neurociências. É consultora ad hoc de agências de fomento e revisor de períodicos da área. Coordenadora do Grupo de Pesquisa em Plasticidade Neuroglial e coordenadora do departamento de Bioquímica do ProTID.
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