O músico austríaco, Zuckerkandl, se propõe a analisar a música pela música, constantemente retomando os elementos fundamentais desta arte, seu sistema e sua dinâmica. Contudo, não desconsidera as disciplinas que se articulam com a música; apenas acredita que seus objetos de estudo não partem da música, mas de aspectos externos a ela. Mesmo que o objetivo imediato da música permita variações, ajustando-se às situações exigidas, como servir de apoio a alguma finalidade religiosa, social, ou cinematográfica, há algo que se mostra comum em todos estes contextos. Partindo disso, o autor retoma conceitos primordiais da relação do homem com a música, defendendo a idéia de que, em sua origem, a arte não existe enquanto algo externo, algo a ser admirado. No passado, homem e arte se fundem, coexistem. O desenvolvimento da fala, porém, promoveu a distinção entre sujeito e coisas, gerando segregação quando antes era unidade. Sendo a música elemento constitutivo da espécie humana, sua possível função é possibilitar ao homem o abandono de seus limites, um alargamento do Ser, um retorno à posição de totalidade com as coisas que o cercam, não suplantando a linguagem, a razão, o logos, mas agindo de forma complementar. Este artigo apresenta traços de um ensaio filosófico, porém sem seu rigor estrutural. A tese colocada por Zuckerkandl de que a música constitui todo ser humano é colocada em diálogo com os filósofos Nietzsche e Susanne Langer. Nietzsche, por seu pensamento sobre a música e a existência humana, e Langer, pelo estudo sobre simbologia e sobre a linguagem da arte. Para Nietzsche, analisando a tragédia grega, na música está a dinâmica criadora, não conceitualmente compreensível, como no caráter apolíneo, mas misticamente perceptível, na música dionisíaca. São nestes momentos de embriaguez, de perda das noções de individuação, das formas e aparências do mundo, que o homem se reintegra à natureza, retoma a consciência e o prazer de sua existência. Langer fortalece essa idéia, porém num outro caminho. Estudiosa da lógica, ela discute a lógica simbólica nas artes; em música, conceituando objeto e símbolo, concluindo que o objetivo da música não é - como muitos afirmam - a catarse. Não é atingir o sentimento em si, mas tornar possível seu conhecimento. Não é explicar, mas possibilitar o contato. É a apreensão do conteúdo antes mesmo da articulação de seus elementos. E, como para ela, é da natureza humana o pensamento simbólico, na mesma proporção que a linguagem consegue delimitar e especificar de forma impossível para a arte em geral, a música é um instrumento para ter acesso a lugares que a linguagem não consegue alcançar.
Palavras-chave: música, significação, totalidade, existência.Autora: Carine Leite de Ávila. Bacharel em Filosofia (USJT-SP, 2009); Bacharel em Musicoterapia (FAP-PR, 2003); Realizou de 2005 a 2009 trabalhos artísticos culturais na Fundação CASA (SP); Integrante do grupo de pesquisa sobre "Ser e Tempo", Martin Hiedegger (USJT-SP, 2010); Áreas de atuação em Musicoterapia: gerontologia e infectologia.
Nenhum comentário:
Postar um comentário