sexta-feira, 27 de maio de 2011

MUSICOTERAPIA E NEUROCIÊNCIA II

A Música no seu Cérebro: A Ciência de uma Obsessão Humana, livro de Daniel Levitin (2010) - Resenha.
Afora alguns compêndios sobre a neurofisiologia do sistema auditivo e psicoacústica, são poucos livros editados no Brasil que tratam especificamente das relações entre música e cérebro. Podemos destacar nas últimas décadas Jourdain (1998), Straliotto (1998, 2001), e Alucinações Musicais, de Sacks (2007). A Música no seu Cérebro: A Ciência de uma Obsessão Humana, de Daniel Levitin (no original, This is your brain in Music, 2006), ocupa um importante lugar nas neurociências da música. Seu lançamento pela Civilização Brasileira - três anos após a edição portuguesa - possibilitou alcançar um número maior de musicoterapeutas brasileiros. Em se tratando de um músico, engenheiro de estúdio e produtor musical, além de neurocientista, Levitin preconiza o estudo do processamento neurológico por meio do repertório musical cotidiano, enquanto foca a experiência prazerosa e a emoção despertada pelo ato de fazer/escutar música. Assim, seu livro se complementaria com a escuta atenta das músicas comentadas. Ele intencionalmente utiliza uma linguagem simples, evitando jargões excessivamente técnicos. Entretanto, objetivando um maior aprofundamento, esta resenha toma como guia as notas bibliográficas comentadas ao final do livro, buscando, quando possível, o acesso às fontes; e compõe uma intertextualidade com os principais autores citados e com o campo das neurociências da música. Levitin analisa, nos primeiros dois capítulos, o que ele vem postulando como oito parâmetros perceptivos sonoros/musicais, acrescentando a reverberação aos demais: intensidade, altura, contorno, duração, andamento, timbre e localização espacial. Diversos estudos revisados sugerem que estas "dimensões" teriam mecanismos neurocognitivos relativamente autônomos. A combinação entre esses parâmetros e o estabelecimento de relações significativas daria origem a conceitos musicais "mais elevados" como métrica, tonalidade, harmonia e melodia, o que vai ao encontro das teorias modulares defendidas por Peretz e outros. No capítulo III, o autor vem questionar o dualismo descartiano da divisão entre mente e cérebro. Não se vinculando estritamente nem a uma corrente funcionalista nem localizacionista, mapeia o neuroprocessamento musical como uma atividade excêntrica, paralelística e com ampla distribuição, onde o maior potencial de ação está na conectividade da rede neural. Revisa em seguida uma série de questões de interesse ao campo da musicoterapia: em que medida o processamento musical é especializado; quais as possibilidades neuroplásticas provocadas pela música; de que maneira música, emoção, memória, motricidade e linguagem verbal se associam e compartilham circuitos neurais. Conceitos em torno de neurônios-espelho, a hipótese do recurso compartilhado de integração sintática (PATEL, 2003), memória e gestalt, ou a relação semântica-estrutura-expectativa musical são também investigados. Levitin chama a atenção para a não distinção, em exames de neuroimagem, entre escutar ou imaginar música. Esses estudos vêm referendar que a percepção antecipa os passos do "discurso musical" e que a dinâmica entre frustração e atendimento à expectativa musical mobiliza emoção, afetos ou motivação, o que pode ser utilizado tanto no cinema como na musicoterapia. Finalmente, sabendo da importância de uma cultura de busca de fontes primárias, serão demonstradas as vantagens da utilização de softwares bibliográficos como o Endnote e o Zotero, em associação com o banco de dados on-line Citeulike, para compartilhamento desta e outras pesquisas.
Palavras-Chave: Música; Cérebro; Musicoterapia; Citeulike
Autor: Leonardo Campos Mendes da Cunha. Mestre em Etnomusicologia (Escola de Música da Universidade Federal da Bahia - UFBA, 2008); Graduado em Musicoterapia (Universidade Católica de Salvador, 2000); Graduado em Psicologia (UFBA, 2000); Pesquisador convidado do LEME - Laboratório de Estudos em Movimentos Étnicos; Presidente da Associação Baiana de Musicoterapia.

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